segunda-feira, outubro 03, 2005

O Rapto de Mogodochi – Febre de Sábado à noite


O regresso dos nossos heróis a Portugal foi célere. A notícia divulgada pela Feiticeira deixou toda a gente em estado de choque. Mogodochi nunca tinha saído do Tibete, a sua Energia era vital para o local. Era agora imprescindível a manutenção do segredo, ninguém poderia saber que o Senhor dos Niitsumy estava longe, na diversão, enquanto a Guerra-fria com os Minochi prosseguia. A coincidência do local escolhido por Mogodochi para a boémia colocou os dois amigos no epicentro da trama.
As ordens dadas pelos Mestres dos Templos tinham sido claras: Talk Talk, Crazy Charm e o Yeti Du Frak iriam resgatar Mogodochi das garras da rambóia, convencendo-o a regressar à sua terra natal.
Coincidência ou talvez não, a chegada do trio a Portugal deu-se num Sábado do fim do mês de Janeiro. Nessa noite jantaram no Restaurante “Muralha da China” na Baixa da Banheira. Este Restaurante chinês é uma fachada. Nas caves do mesmo existe um clube niitsumico, onde membros de toda a Europa desta estirpe de guerreiros se encontra para confraternizar, definir estratégias, jogar à bisca e ao dominó.
Após o repasto foi altura de apanhar um táxi perto do Café Alentejano, na Estrada Nacional e rumar à Cleópatra, a Discoteca/Clínica de Fisioterapia mais famosa das redondezas. Não foi fácil colocar Du Frak no táxi, mais difícil foi retirá-lo. Disfarçados de Disco Stars dos 70´s entraram no estabelecimento cuja pista bombeava bits tresloucados de um hit dos Bee Gees. Centenas de indivíduos de idade avançada dançavam freneticamente. Quase inconscientemente Charm e Talk puxam cada um do seu pente no momento em que chegam à pista, executando movimentos de genuíno estilo, próprios de quem domina a situação. Du Frak puxa duma forquilha e executa os mesmos movimentos no seu pêlo, ligeiramente menos estiloso.
Onde estaria Mogodochi? Iniciaram-se então as buscas na Discoteca.

sexta-feira, setembro 30, 2005

O Rapto de Mogodochi – Help me Rhonda


Ao cabo de duas horas de caminho, com o fim das montanhas e com a ameaça feita a Baka de que nunca mais comeria morangos silvestres com açúcar, se insistisse na sua dança disco-terramótica, a viagem tornou-se suportável e até agradável. A Auto-Estrada, por enquanto livre de portagens, entre Niitsumy City e a Floresta Branca, era um verdadeiro regalo para a vista.
Uma tabuleta indicando “Lago da Serpente – 7 km”, quebrou a monotonia da viagem, provocando uma saída da Auto-estrada. O autocarro transportando o grupo de Guerreiros Niitsumy entrou de seguida numa estrada esburacada, estreita demais para o cruzamento de dois veículos. A orla da floresta branca surgia à esquerda e em frente. Do lado direito o lago. A estrada terminava estranhamente à entrada da floresta. Uma Placa dizendo “Cuidado! Afaste-se da Floresta e não tome banho no Lago porque pode acordar o Bicho!”, fez estremecer a confiança do grupo. Mesmo assim penetraram no negrume em busca da casa de Rhonda, a Feiticeira Vidente. Desde cedo, o sexto sentido niitsumico indicava que estavam a ser observados.
O som de água corrente quebrava o silêncio da Floresta. Uma elevação rochosa lembrando uma muralha surgia à sua frente. Uma enorme cascata caía da elevação formando um pequeno lago. A floresta envolvia o conjunto criando um cenário de rara beleza. No centro do lago existia uma pequena ilha com um prado verdejante, que não teria mais de 50 m2, com uma espécie de torre em madeira no centro.
Juanito Caracas, Niitsumy Venezuelano tomou a iniciativa e gritou:
- Hey, Senhorita Rhonda… somos Niitsumy, queremos falar consigo.
Nisto ouviu-se um som fortíssimo e continuo a fazer lembrar o motor de um avião. A torre abriu-se e transformou-se numa ponte, ligando o local onde eles estavam à outra extremidade do pequeno lago, mesmo no centro da cascata.
Os Niitsumy atravessaram a ponte, passando por debaixo da cascata entrando numa gruta. Era um autêntico apartamento de luxo, uma enorme sala, com sofás vermelhos e um enorme tapete de Arraiolos no chão. Nas paredes um enorme retrato da feiticeira e uma pintura abstracta. Não haviam cadeiras nem mesas, apenas um trono de pedra num canto, talhado na rocha, onde com um ar austero Rhonda observava os visitantes. Era uma mulher magra, morena, cabelo ondulado preto, de idade completamente incerta. Vestia uma espécie de combinação preta com meias transparentes. Umas botas e um blusão de cabedal pretos completavam a sexy toilette (qualquer semelhança com a Cher é pura coincidência). Sem deixar que se apresentassem Rhonda exclamou:
- Primeiro deixem-me que lhes diga que não tenho chá nem bolinhos para tanta gente. Segundo, eu sei o que vos trás por cá mas recordo-vos que não trabalho de graça para ninguém, nem para vocês…
Dinheiro. O eterno motor da Humanidade. Mas este grupo de Guerreiros Niitsumy estava sem ele. Num momento de inspiração Talk Talk segredou ao ouvido de Charm. Em seguida os dois começaram a estalar os dedos, o refrão começou a ouvir-se…”Help me Rhonda, Help Help me Rhonda…” Os outros Guerreiros, lembrando-se do êxito dos Beach Boys começaram a acompanhar. Foi a loucura. Vinte tipos em uníssono cantarolando o “Help me Rhonda” de braços abertos na direcção da feiticeira. A gruta possuía uma acústica extraordinária. Foi o suficiente:
- Pronto, pronto…vocês são uns queridos – Disse Rhonda já com um semblante amigável e denotando alguma comoção – Mogodochi não foi raptado. O homem apenas quis tirar umas férias. Estava farto disto. Du Frak, o Yeti Cobrador de Cotas, falou-lhe duma discoteca em Portugal, na Margem Sul…uma tal de Cleópatra. O Grande Mestre achou que era a altura ideal para se divertir um pouco. Foi simplesmente abanar o capacete.

quinta-feira, setembro 29, 2005

KIT Patanisca

Fazendo uma pequena interrupção na Saga dos Guerreiros Niitsumy, venho relatar-vos uma iniciativa louvável na minha mui amada região.
O recém-formado C.T.A. é um clube recreativo e cultural que visa apostar na formação de jovens jogadores de Descascamento de Ervilhas e de Chinquilho. Aproveitando o apoio camarário às colectividades, Luís Azedo, proprietário da Tasca com o seu nome e presidente da Associação dos Descascadores de Ervilhas e Favas, tomou a iniciativa de criar oficialmente este clube, que no entanto já existia informalmente, impulsionando vigorosamente as modalidades referidas.
Para promoção do Clube e angariação de novos sócios, Azedo criou este conceito do KIT Patanisca. Trata-se duma caixa de sapatos vazia da Sapataria Pezinho no Lavradio, forrada com papel de embrulho lilás, que contém o seguinte no seu interior:

  • Um cartão de sócio com cotas pagas até Dezembro de 1998.
  • Um exemplar autografado pelo grande Zé Caxias de “As Caxíadas”, manuscrita por “Facadas” Canhoto em tinta permanente.
  • Uma cassete pirata interactiva com o último álbum dos i-glamour. Apresenta fotografias dos membros da banda em calções de banho na Praia do Rosário.
  • 2 Passagens para um Cruzeiro pelo Mar da Palha, com direito a estadia na Ilha do Rato e a uma caixa de ração de combate (atenção que aquelas coisinhas pretas são fulminantes e não servem para mascar).
  • O direito a duas semanas de bar aberto na Tasca do Azedo, aplicável apenas a copos 3 e ginjas.
  • Uma miniatura do carro do Michael Knight de “O Justiceiro” (versão brasileira).

O KIT Patanisca pode ser adquirido em qualquer posto de gasolina “Amílcar Canhoto”, no quiosque da Dona Maria nas Salinas de Alhos Vedros ou então na própria Tasca do Azedo.
Em conversa tida connosco, entre uma dúzia de minis e um papo-seco com manteiga, Luís Azedo garantiu-nos que se o Clube não atingisse as duas dezenas de sócios até ao fim do ano desistiria do projecto. Vamos acreditar nas palavras do Luís e vamos lutar pela Colectividade. Nós já adquirimos o nosso KIT e tu?

quarta-feira, setembro 28, 2005

O Rapto de Mogodochi – Reunião


Ainda o Sol teimava em não nascer e já oito autocarros, estacionados à porta do Hotel, se enchiam de Guerreiros Niitsumy trajados de acordo com o protocolo niitsumico. Os chinelos castanhos, a túnica amarela, o cinto preto, o chapéu também preto a lembrar uma caravela quinhentista, o cajado de pau de chu (madeira de alta densidade), a espada variável consoante o gosto de cada um.
O autocarro onde viajavam Crazy Charm e Talk Talk era conduzido por Loin Baka, um Yeti bonacheirão viciado em pastilhas gorila e em música Disco. Enquanto conduzia, Baka ia mexendo os ombros em movimentos contínuos e ritmados, ao som de êxitos dos Bee Gees, dos Cool and the Gang ou de Olívia Newton John. Esta dança, embora razoavelmente cool, provocava um medonho balancear no pequeno autocarro, lembrando uma barcaça no meio de uma tempestade no mar.
O Templo Azul, para onde se deslocavam os Niitsumy, era o primeiro dos sete Templos. Encontrava-se situado junto a um ribeiro, num pequeno vale, donde era possível ver Niitsumy City e o Lago da Serpente lá bem no fundo. Olhando na direcção oposta vislumbrava-se no topo de uma montanha o Templo Doirado, o 7ª, a Casa de Mogodochi, o Supremo.
O Templo Azul era um edifício enorme de formato cilíndrico, com mais de 16 metros de altura e 30 metros de diâmetro, pintado exteriormente de azul-escuro, totalmente construído em madeira. A cobertura era constituída pela folhagem de 4 enormes árvores cujos ramos iniciavam à altura do topo do edifício. As copas das árvores eram tão espessas que quando chovia apenas brotavam fios de água, pelos troncos das árvores, para o interior do Templo.
Chegados ao destino, ainda almareados pelas curvas da montanha e pelo balanço do autocarro, desceram uma escadaria de pedra, junto à entrada sul do Templo. Os degraus talhados na rocha conduziam os guerreiros para uma gruta, de onde por um corredor, iam sendo guiados para uma antecâmara relativamente grande. Esta sala tinha algum conforto: música ambiente, luz eléctrica, chão alcatifado, cadeiras almofadadas dispostas em filas. No fundo um pequeno estrado em madeira com uma mesa rectangular com 7 lugares. Eram os lugares dos Mestres de Templo, os Tashidochi. Na hierarquia niitsumica ocupavam o topo, logo a seguir a Mogodochi.
Os cerca de 600 Niitsumy convocados ficaram sentados em silêncio ouvindo as palavras de Lu Ting, o mais velho e sábio dos Mestres.
Ninguém fazia ideia onde poderia estar Mogodochi. Presumia-se que tinha sido raptado pelos terríveis Minochi. A solução passaria por viajar até à Floresta Branca e procurar as visões de Rhonda, a feiticeira. Restava saber quem iria executar tal tarefa. Foram escolhidos vinte Guerreiros Niitsumy ao acaso, entre eles estavam Talk e Charm.
O pânico transpareceu das suas faces quando repararam que a viagem seria feita de autocarro e Baka seria de novo o motorista.

segunda-feira, setembro 26, 2005

O Rapto de Mogodochi – Cheira a Lisboa


Niitsumy City estendia-se num planalto repleto de verdejantes campos, onde estranhamente não caía neve. Era composta por ruas geometricamente alinhadas, de casas baixas com grande influência arquitectónica europeia, construídas em pedra e com cobertura em telha cerâmica de cor vermelha. Com a proliferação mundial dos ideais niitsumicos ao longo da primeira metade do século XX, muitos ocidentais aderiram ao movimento, pelo que a cidade foi-se desenvolvendo e transformou-se naquilo que é hoje. Para além de Guerreiros Niitsumy viviam nela humanos autóctones, curiosos do movimento, Yetis, bandochis (tosquiadores de Yetis), duendes, caçadores de gambozinos, negociadores de unhas de Yeti, feiticeiros e muitos outros.
Crazy Charm e Talk Talk, apanhando o Mats Borg distraído, saíram sorrateiramente do Hotel e rumaram a Litle Portugal, um castiço bairro na zona norte da cidade. Logo a seguir à mercearia do Teves, que se situava no nº 31 da Rua de Camões, surgia um pequeno beco donde provinha um tremendo cheiro a urina. No meio do beco existia uma arcada, que escondia parte da tabuleta de madeira identificativa duma taberna que dizia “East Mouraria”. Em passo apressado os dois amigos entraram no estabelecimento.
A taberna era tipicamente portuguesa. Pavimento em cerâmico hidráulico, bancos de madeira, mesas com tabuleiro de damas desenhado, cartazes do Zé-povinho a afastar os fiados, balcão com tampo a imitar mármore, galos de Barcelos espalhados por todos os cantos. O calor humano era brutal. Mais de cem pessoas de diferentes origens divertiam-se duma forma salutar e extremamente barulhenta. Os dois Niitsumy eram a par da proprietária da taberna os únicos portugueses que lá se encontravam. Dona Maria da Conceição Li era luso-chinesa e tinha adquirido o estabelecimento após anos de trabalho numa casa de fados em Macau, onde tinha sido cantadeira, guitarrista e cozinheira de petiscos típicos.
Com a entrada dos lusos, um grupo de vinte monges budistas que se encontrava em trânsito para a Índia, reparou nos seus tons de pele e fisionomia. Em tibetano um deles referiu em voz alta, “São portugueses e são Guerreiros Niitsumy”. Nisto fez-se silencio. Dona Maria entusiasmou-se e em forma de dedicatória, com dois Yetis a acompanhar na guitarra, iniciou o conhecido fado “Cheira a Lisboa”. É então que acontece algo de inesperado: os monges, munidos de canecas de barro cheias de vinho tinto da zona do Douro, que balanceavam na cadência da música, começaram a cantarolar um inicialmente tímido “lalala lalala lalalala”, transformado rapidamente num brutalmente sonoro “LALALA LALALA LALALALA”.
Uma lágrima caiu da face dum comovido Talk Talk. Crazy Charm limitou-se a sorrir e disse: “Isto é qualquer coisa de extraordinário, Yetis de 3 metros a tocar guitarra portuguesa”.

sexta-feira, setembro 23, 2005

O Rapto de Mogodochi – Recordações


Tinha sido fretado um avião para transportar todos os Niitsumy europeus. Portugal era o último país da escala. A viagem seria agora directa, até ao Aeroporto Internacional Mogodochi, Base Niitsumica – Tibete.
A viagem parecia durar uma eternidade. Borg ressonava desalmadamente. Talk conversava com uma hospedeira holandesa, trocando impressões sobre… futebol e pastéis de bacalhau. Charm estava envolto em pensamentos, memórias de tempos passados. Recordava os seus primeiros treinos na arte marcial niitsumica.
Foi em 1986, que Albert MacCosta, um Mestre Niitsumy luso-escocês, nascido em Serpa e criado em Glasgow, o descobriu num Corta-Mato na Quinta da Fonte da Prata, concelho da Moita. O pequeno Charm corria como se o amanhã não existisse. Albert detectou a sua apetência para se tornar num valoroso Guerreiro Niitsumy. Convenceu os seus pais e levou o petiz para a Serra da Arrábida ministrando-lhe intensos treinos durante anos. Foi ai que Charm conheceu Talk Talk.
Os seus pensamentos transportavam-no para a primeira viagem que fez ao Tibete. Recordava-se de caminhar na neve durante dias, de sentir um frio que se entranhava nos ossos, de ouvir constantemente as criticas do seu velho Mestre, naquele estranho sotaque meio alentejano meio britânico: “Charm, anda lad…não fiques para trás senão levas nos cornos”, “Fogo…está um frio do catano pá, estou farto desta merda”.
Albert MacCosta estava agora na reforma. Gozava os seus dias de descanso numa quinta na Serra do Caldeirão, onde cultivava alfarrobeiras e laranjeiras. Era um homem na casa dos 70, alto e magro, barba branca, moreno, culto, apreciador das coisas boas da vida. Tratava-se dum verdadeiro cavalheiro que adorava misturar as duas culturas donde provinha: Kilt e samarra alentejana, whisky e azeitonas, golfe e jogo da malha.
Os avisos do comandante fizeram despertar os sentidos em Crazy Charm. Borg acordou finalmente aliviando os ouvidos dos outros passageiros.
Olhando pela janela era possível vislumbrar o território controlado pelos Niitsumy. Seria uma área com o dobro do tamanho da península de Setúbal. A norte as montanhas Sagradas, local dos Sete Templos, a casa de Mogodochi. A sul a Floresta Branca e o Lago da Serpente, local mágico repleto de feiticeiros e duendes. A leste as Grutas de Mi Rah Dari, terra dos Yeti, os abomináveis homens das neves. A oeste a interminável cadeia montanhosa.
Aterrado o avião, com mais um galo na cabeça de Borg, foi tempo de partir para o Hotel White Bigfoot em Niitsumy City, a 7 km do Aeroporto.
A reunião de urgência dos Guerreiros Niitsumy estava marcada para o dia seguinte nas montanhas Sagradas, na cave do Templo Azul. Agora era altura de rever velhos amigos, revisitar locais queridos e retemperar forças para os desafios que se adivinhavam.