quinta-feira, junho 08, 2006

Missão: Impossível – 3º Parte

Não conhecia o Café do Kalu, situado numa rua escondida da “Nova” Fonte da Prata. No entanto ao entrar pela primeira vez senti que já lá tinha estado. Talvez numa outra vida, ou então durante uma qualquer rambóia esquecida pelos efeitos do álcool e pela escabrosa passagem do tempo. As bandeiras de Angola e de Portugal (com os seus característicos pagodes chineses a fazer de torres), decoravam o suporte da enorme televisão. Um boneco nu, munido dum cachecol do Benfica, a fazer um manguito, instalado sobre o aparelho completava o ramalhete futebolesco.
Pretendia encontrar Charm. Mas o dia era de sorte, para além do Charm também lá estava o Seducer. Eram dois coelhos numa cajadada, ou como diria a minha Anuska, duas lebres num cajado!
Estavam sentados nos bancos junto ao balcão, bebendo cerveja e petiscando umas azeitonas. Charm, nome de código: Xarope Pá Tosse, viu-me pelo espelho e desviou o olhar, nas esperança que eu não o tivesse visto. Seducer, nome de código: O Leiteiro, nem reparou na minha aproximação, entretido que estava a contar os caroços de azeitona.
- Olá pessoal. Como é que é? Tudo bem?
- Ah Talk… tudo fixe? Nem tinha reparado que aqui estavas… - Disse Charm.
- Grande Talk, nunca aqui te tinha visto… - Acrescentou o Seducer.
- Pessoal, vim cá de propósito porque quero que vocês façam parte duma missão…
- Missão?! Fixe, já estava com saudades dessas aventuras. Nunca mais me esqueço da vez em que fomos resgatar a mula da Tia Joaquina ao quintal do Toni Barbeiro…. – Disse entusiasmado o Seducer.
- Não contes comigo – Retorquiu o Charm – I´m out! Já não me meto nessas “cowboyadas”.
- Nem para proteger a Ilha do Rato?
- Proteger do quê? Dos mosquitos e das tainhas? Andas a fumar cascas de tremoço estragadas pá!! Vocês são mas é malucos! Não contes comigo. Esquece. Nada me fará mudar de opinião…
- Nem mesmo este DVD pirata de Os Jovens Heróis de Shaolin?
- Legendado em português? – Perguntou o Charm – É que o mandarim é uma língua difícil de entender…
- Sim sim, claro! – respondi-lhe eu.
- Ok, conta comigo. I´m in.

segunda-feira, junho 05, 2006

Missão: Impossível – 2º Parte

Hoje em dia não é fácil formar uma equipa. Nem para fazer uma jogatana de futebol salão, quanto mais para realizar uma missão ultra-secreta com o intuito de resolver uma tramóia de âmbito internacional, pondo em risco a própria integridade física.
O primeiro objectivo era convencer Stylish, nome de código: Anjo do Amoníaco. Treinado em ambientes agressivos, teórico de piscinas, especialista em missões como infiltrado. Marcámos um encontro no sitio do costume, o campo de basquete. O objectivo era não dar nas vistas, e para isso nada melhor do que conversarmos enquanto lançávamos umas bolas ao cesto.
Estranhei o atraso de 20 minutos. Não era seu costume chegar tão adiantado. Denunciava alguma ansiedade. Vinha, segundo os seus padrões, vestido de forma apropriada para a ocasião. Botas, camisa preta, calções pretos e claro, boné branco e óculos escuros para se proteger do sol.
Após os normais cumprimentos, começámos a conversar e a fazer uns lançamentos.
- Bem Stylish, o Chispes deu-me uma missão. Queria que fizesses parte da equipa.
- Eu já não estou no activo. Não me metas nisso pá.
- Querem destruir o Gesso…
- O quê?
- O Benquisto anda a tramar das suas. Vai fazer daquilo um quartel-general. Já estás a ver para quê não é?
- Para ter um melhor acesso à praia da Barra-a-Barra e fazer uns piqueniques com as moçoilas?
- Não pá. Para atacar a Ilha do Rato!
- Bem Talk… então conta comigo…
Nisto surgiram dois indivíduos no campo de basquete. Vinham munidos dum grande transístor, donde brotava o som dum Rap dos anos 80, desse grande vulto da música, Vanilla Ice. Vinham ambos vestidos à hip hop. Um era o Chico Ice Man, o outro não conheci, mas também tinha ar de ter feito o liceu (tal como o Chico) há já muitos anos.
- Hey Yo!! – Exclamou o Jaquim sempre a rappar– Quero desafiar-vos para um jogo. Até aos 20. Quem ganhar é chefe e senhor deste cubículo, yo.
Não conhecia esta faceta do Chico. Também não sabia que jogava basquete, pelo menos que jogava assim tão mal. Em pouco mais de 15 minutos, eu e o Stylish conquistámos o titulo de “chefes do cúbiculo”.

quinta-feira, junho 01, 2006

Missão: Impossível – 1º Parte

Nunca entendi os devoradores de amendoins, especialmente quando há tremoços para acompanhar a cerveja. O tipo que se encontrava sentado na mesa à minha frente, acompanhado duma telefonia ligada e duma marioneta com a figura do Pinóquio, não parava de devorar aquele fruto seco, ao mesmo tempo que seguia com um olhar arregalado todas as raparigas (e rapazes) que cruzavam a esplanada.
Mas… não era isso que me ali me trazia. Licínio Chispes, nome de código: Patas d´Urso, tinha-me mandado um SMS. Queria falar-me com urgência.
A sua chegada foi tudo menos discreta. Eu estava sentado no meio da esplanada. Licínio veio de norte. Quando entrei em contacto visual com ele, encontrava-se a 20 metros de mim, entre nós haveria cerca de 4 mesas com cadeiras, quase todas vazias. Nenhuma manteve a mesma posição após a sua passagem.
- Boas Talk!
- Olá Chispes. Que se passa?
- Como sabes não podemos falar abertamente. Bebe isto, já vais perceber…
- O que é isso? Alguma nova tecnologia?
- Sim… não, quer dizer… é Pepsi… bebe, vá lá…
- Pepsi?! Mas tu sabes o que me acontece quando bebo Pepsi?!
- Sei. E é mesmo por isso… depois segue os teus instintos…
“Cum catano!!”, pensei enquanto descia velozmente a escadaria de acesso ao W.C. “Vou conseguir… vou conseguir… já estou lá quase… “ pensava eu. Foi por um triz!! Já confortavelmente instalado na sanita e deveras aliviado dei inicio a um processo que me levaria à descoberta de toda aquela tramóia do Chispes. E agora? Qual seria o próximo passo? Ao tentar utilizar o papel higiénico descobri a resposta. O papel, à medida que era desenrolado, continha a seguinte mensagem:
“Bom dia Talk. Sabes o que os Depósitos de Gesso, no Lavradio, bem de frente para a nossa amada Ilha do Rato, representam para nós. Mike Benquisto, conhecido traficante de caricas e rolhas de plástico, tem um plano maquiavélico para a zona. Tenciona fazer da área o seu quartel-general, criando um ponto estratégico para conquistar a Ilha do Rato. A tua missão, caso a aceites, é destruir os seus intentos. Mais uma vez se tu, ou qualquer membro da tua equipa for apanhado, a Agência negará qualquer ligação a vocês. A mensagem destruir-se-á à medida que fores limpando o traseiro. Boa sorte Talk!"

terça-feira, maio 30, 2006

Porque a bola é redonda – A alimentação

Esta crónica é para ti. Sim jovem, para ti que apesar de seres um imberbe balofo, que passa a vida a jogar computador e a comer pizzas e hambúrgueres, tens o sonho de vir a ser um dia um jogador de futebol. É importante saberes que não basta teres toque de bola, seres sobrinho do Presidente do Clube, ou teres um penteado à líder dum gang da Cova da Moura. Também é necessário muito trabalho, muita dedicação e em especial teres cuidado com aquilo que comes.
A alimentação dum futebolista é a etapa mais importante para subires os degraus do sucesso. Comer bem é o que fará a diferença entre chegares ao último andar do edifício da glória ou tropeçares e vires ao rebolão por ai abaixo, até partires a espinha algures entre o rés-do-chão e a cave.
De manhã aconselho uma boa gemada. Quatro a cinco ovos crus, bem batidos e com três ou quatro pacotinhos de açúcar para adocicar o sabor. É uma entrada no dia à campeão!!!
A meio da manhã, nada como uma carcaça de pão com torresmos, porque proporciona aconchego ao estômago e principalmente porque fornece aos músculos e tendões a mobilidade necessária à prática do exercício físico. O almoço convém ser bem composto. Se já tiveres mais de 11 anos podes beber um copo de vinho tinto que não faz mal nenhum a ninguém. Se treinares a seguir ao almoço convém beberes um bagacinho para fazeres melhor a digestão. Não vamos querer que vomites no pelado, certo?
Ao lanche está mais que na hora de ingerires os hidratos de carbono necessários a compensares as perdas de água no treino. A cevada da cerveja é boa para isso. O tremoço e o caracol também.
Por fim e para rematar, um jantar rico em vitamina. É nas vitaminas que vais buscar as forças para correres atrás dos adversários, fazer rasteiras, dar encontrões, cuspires a longa distância. Há uns comprimidos bons para isso nas farmácias. Agora também se vendem nos hiper-mercados.
Aqui tens umas dicas, aproveita-as e já sabes… trabalho e mais trabalho e quiçá um dia venhas a ser um grande jogador, cujo nome ecoará pelos pelados da região.
Escrito por “Facadas” Canhoto, Treinador de Futebol

terça-feira, maio 16, 2006

As noites culturais da Vinha das Pedras

Por vezes esqueço que não só de charme punk rockeiro se faz a cultura. E para me recordar disso nada melhor do que uma visita, todas as 4ª feiras, depois das 11 da noite, ao café do Fernando, meu primo em 3º grau.
Para além das caracoladas acompanhadas de “mines” e reflexões profundas sobre o mundo da bola, há lugar à poesia. Quem tiver coragem e algum equilíbrio (e/ou domínio sobre a cerveja) pode subir a um palanque situado num canto e dissertar palavras recheadas de sabedoria e sentimentos.
“Facadas” Canhoto, conhecido treinador de futebol/poeta popular da nossa praça foi um dos intervenientes da última noite. Fiquem com esta pérola:

Com as cuecas da Maria
Eu mandei fazer uma vela
E enquanto a maré subia
Zarpei num barco com ela

Mandei a Maria prá proa
E ela por lá se sentou
Encheu-se de água a canoa
10 metros depois naufragou

Coberta de lodo e zangada
Culpava a rigidez da jangada
Quis bater-me com um bastão
Não vendo o lado da razão

Mas que culpa posso ter
Que a barcaça naufragada
Fosse construída pra suster
No máximo meia-tonelada?

quarta-feira, maio 10, 2006

Crónicas do Zé Caxias – Já temos 1ª Dama!!!

Amigos, peço-vos desculpa pelos longos meses em que estive ausente. Acredito ter sido penosa a vossa espera, mas por agora compensar-vos-ei com a minha assídua presença.
O meu indesejado afastamento teve uma razão.
Foi o Amor. Sim, Zé Caxias, o eterno namoradinho da Fonte da Prata, o solteirão mais desejado no Além Tejo, entre as estradas nacionais 10 e 11 até ao cruzamento de Coina, ficou finalmente apanhadinho.
A felizarda é a rainha da socialite banheirense, Pipoca Camurça. Conservada como a sardinha enlatada, de peitos fartos a lembrar balões de ar em fim de festa, traseiro desproporcionalmente grandioso mas incapaz de lhe retirar a agilidade dum porco adulto.
Foi amor à primeira vista. Quando a vi a dançar na festa da Pinha da Colectividade do Alto da Serra, senti algo em mim que nem sei descrever. Aproximei-me com a destreza que me caracteriza, olhar de lince, andar de gingão, sorriso de charme patético. Tocava na altura um hit de Quim Barreiros “Põe o carro, tira o carro…”. “Oi garota”, sussurrei-lhe ao ouvido, “a tua garagem tem capacidade para o meu camião TIR?”. “Camião TIR?!” duvidou ela, “só se for da Loja dos Chineses”. “Olha que na China é tudo em grande minha doce Princesa da Volúpia”, retorqui eu, “deixa-me ser o teu Chinês Limpa-o-pó, deixa-me acabar com as teias de aranha da tua “casa” há anos abandonada”. Foi o principio da relação. A Ilha do Rato descobriu finalmente a sua Primeira Dama.

Zé Caxias, Barão da Ilha do Rato.