sexta-feira, agosto 05, 2005

As Caxiadas - Canto II

O Descobrimento da Ilha do Rato

E lá foi Fred Caxias pelo Mar da Palha
Guiado pelas chaminés do Barreiro
Passou junto ao Tollan, que Deus lhe valha
Que permaneça adormecido o velho cargueiro
Quando avistou a Barra a Barra, Cabo canalha
Pesadelo de navegantes em dias de nevoeiro
Um calafrio na espinha o herói sentiu
Estava perto do seu primeiro desafio

A grandeza do Cabo deixava-o preocupado
Mas o azul do céu dava-lhe alento
Rezando e remando no mar encrespado
Dobrou-o finalmente com grande talento
Mas depois veio o negrume, o céu nublado
E um cheiro sinistro, por demais pestilento
Gases cuspidos das chaminés do Barreiro
Provavam que o Mar da Palha era bem traiçoeiro

O terrível Amoníaco deixava-o almareado
Quase nem pensava no Caminho a descobrir
Chegar à Moita estava a ficar complicado
O sonho estava mais longe de se cumprir
É então que no horizonte enevoado
Um manto branco, nova esperança a surgir
Eram os areais duma Ilha Encantada
Que finalmente tinha sido encontrada


in Caxíadas, de Zé Caxias

Cimeira do Butongo – Paz Politica Finalmente

A Taberna do Butongo, ex-libris da Fonte da Prata, serviu de palco a uma cimeira bilateral, onde Pedrito Bodega e o próprio Zeca Butongo (proprietário do estabelecimento) serviram de intermediários. De um lado Zé Caxias, do outro a dupla dissidente Tio Bento e Albino Calhau. Se inicialmente as coisas pareciam frias, com trocas de acusações e olhares de inimizade, aos poucos, depois de meia dúzias de ginjas, vieram os sorrisos, as piadas, as histórias antigas e tudo voltou ao normal. A estabilidade política regressou à Ilha do Rato.
Chegando-se facilmente a consenso foi tempo de assinar o tratado, o qual depois de carimbado foi levado sem demoras para a Torre do Lombo, ficando depositado na secção 3, junto aos enchidos e aos rojões. Para quem quiser consultar este documento estará identificado pelo VMC (código de identificação – Vinho a Martelo Code) com o nº 144/05 – Estádio 8. Este estádio corresponde na escala criada e mantida pelo arquivista Ti’Bezana a um pré-coma alcoólico do próprio.
Deste tratado constam os itens que passamos a descrever:

  1. Albino Calhau e Tio Bento aceitam unilateralmente os direitos hereditários de Zé Caxias sobre a Ilha do Rato, prometendo defender esses direitos quando estes forem ameaçados;
  2. Zé Caxias aceita criar o Ministério do Vinho, do Dominó e das Outras Culturas Taberneiras, que será tutelado pelo Tio Bento;
  3. Serão fornecidos apoios a agricultores que pretendam proliferar a cultura da alcagoita, vulgo amendoim, sendo criada uma Secretaria de Estado própria, que ficará na alçada do Ministério atrás referido.
  4. A Albino Calhau serão entregues 6 fardos de palha para o burro que tem a pastar no terreno da Lagoinha.
  5. Albino Calhau ficará também com uma quota de 12% sobre os lucros totais do futuro IVAM (Imposto Vinho A Martelo), a ser cobrado em todas as Tascas e Adegas. Reformados e menores de 16 anos ficam isentos do seu pagamento;

quinta-feira, agosto 04, 2005

Crise politica na Ilha do Rato – Carta Aberta de Zé Caxias aos cidadãos Tio Bento e Albino Calhau

Zé Caxias não podia ficar quieto. Aqui está a sua resposta:

“Caros concidadãos:

É com mágoa que leio o nefasto manifesto com que me apunhalam as costas. Por vós nutro sentimentos de pura amizade, de camaradagem, de afecto que apenas é possível após anos e anos de convívio. Por momentos esqueci as nossas jogatanas de dominó na tasca do Azedo, as cervejas por nós ingeridas na cadência duns tremoços trincados, as loucas noites de Dança Terapêutica na Cleópatra onde juntos seduzíamos viúvas e divorciadas. Que é feito dessa amizade? Para onde partiu esse salutar convívio?
Agora vêm falar-me em Democratização da Ilha, em eleições… isto parece o fim da macacada!
Albino Calhau, tu que durante anos dominaste as águas ocidentais do mar da Palha. Como Corsário foste grande, como politico és nada. Pretendes servir os teus interesses pessoais, sabes que o contrabando de uísque de Alverca já não é o que era, sentes que o vinho Carrascão é agora o elixir da nossa região e pretendes deitar-lhe a mão. Falharás.
Tio Bento que decepção!!!! Mais uma vez morde na mão que lhe deu de comer. Nutro grande respeito por si. Ainda me lembro de ir à pesca com o meu Pai e consigo. Recordo-me de apanharmos tanto peixe que o meu Pai era obrigado a atirar o Tio ao rio para o barco não afundar. Lembro-me da vez em que me bateu à porta dizendo: “Zé, acabou-se-me as reservas de tinto e de alcagoitas, posso pernoitar aqui?”. E que fiz eu? Deixei-o entrar. Ali ficou durante 4 meses. Não deu para mais, os vizinhos já não aguentavam ouvir (e cheirar) o “Fado das Iscas”, tocado naquela sua versão alternativa que eu ternamente baptizei de Descargas do Tio Bento.
Espero sinceramente que reconsiderem este vosso impensado acto.


Com os melhores cumprimentos

Zé Caxias, Barão da Ilha do Rato”


Nota do Editor: Aproveito para tornar público que os membros dos i-glamour são totalmente alheios a esta crise politica que assola a Ilha do Rato, permanecendo logicamente neutrais.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Movimento Vinícola pela Democratização da Ilha do Rato – Crise Politica Instalada

A proposta até pode parecer absurda. Um grupo de cidadãos, encabeçados por Tio Bento e Albino Calhau, entregaram em mãos a Zé Caxias um manifesto com mais de 5 assinaturas, onde expõem uma série de reivindicações, relativas ao futuro Estado da Ilha do Rato. Passemos a descrever:

“ Exmo. Sr. Auto-intitulado Barão da Ilha do Rato,

É sem malícia, mas com grande preocupação politica, que vimos por este meio expor as nossas ideias, reflectidas e organizadas em estado de suave embriaguês, relativas àquilo que achamos que deva ser um Estado do Rato, independente, plural e democrático. Passando a citar:

1. Achamos que um estado monárquico não é a solução. Exigimos eleições presidenciais. Tio Bento será o candidato deste movimento.

2. As eleições não deverão ser realizadas nas 3 semanas seguintes à festa da Moita, altura em que o nosso candidato e a maioria dos seus apoiantes vivem o período do chamado “Ramadão do Vinho”, que torna, como sabe, impossível qualquer acto democrático como é o caso do voto.

3. Após a Eleição como Presidente será concedido a Tio Bento um período nunca inferior a 6 meses para se recompor da campanha eleitoral, para reflectir um pouco sobre o futuro da Ilha e para ter tempo para se despedir das tabernas, adegas e pipas de vinho que ficarão no Continente.

4. O Desporto Nacional será o Despejo de Copo 3 e nunca o Descascamento de Ervilhas ou o Futebol como é o desejo de V.Exa.

5. Ao contrário do pretendido por V.Exa. (com o turismo e os jogo a serem a base económica da Ilha), pretendemos a proliferação de tascas e adegas, servindo estas de base a um Economia de vanguarda, ligada ao consumo vinícola e às patuscadas.


Sem mais, nos despedimos com a máxima consideração,

Movimento Vinícola pela Democratização da Ilha do Rato”

terça-feira, agosto 02, 2005

O Amor – Sim, porque o Talk Talk também pode falar de amor

Por vezes, perdido no glamour duma banda de charming pop punk rock, a tocar perante unidades de fãs, criando o Estilo, reinventando a música, esquecemo-nos do Amor. E ele existe. Não me refiro ao amor da banda, presente nos pontapés no traseiro, com botas da tropa, que de forma generosa Rebel Seducer nos brinda, ou no olhar terno que Mr. Stylish deixa transparecer quando olhamos para as suas costas, ou ainda à forma amiga com que Crazy Charm, com dois cigarros na boca, nos diz: “Está bonito isto… assim não vais longe não”. Também não me refiro ao amor dos fãs, a todas aquelas manifestações de carinho, aos pastéis de bacalhau lançados ao palco, às moedas de 5 cêntimos jogadas a nossos pés, aos “motivadores” gritos de puro êxtase musical, às perseguições de carro…
Refiro-me ao Amor. Aquele que é cantado tantas e tantas vezes. Aquele que inspira os poetas. Aquele que sinto pela minha Anusca Talk.
Conheci-a numa tarde num festival de música Punk realizado nos Armazéns da Recosta, vai para 6 anos. A química entre nós foi instantânea, eu mandei um piropo repleto de charme, ela respondeu com um atentado contra o meu abono de família. Agradeço-lhe por isso, desde então o meu estilo de tocar viola baixo adquiriu níveis de criatividade nunca vista, num misto de dança russa, break dance e cha cha cha.
Acabámos por casar faz hoje dois anos. Obrigado por me aturares Anusca. Sem ti o Talk Talk não era o que é.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Casamento Molhado, Casamento Abençoado

“Facadas” Canhoto deu o nó. Após meses de namoro com a veterana dançarina exótica Berta, o nosso poeta popular deixou a turma dos solteiros, entregando-se à sua amada numa cerimónia simples mas repleta de simbolismo e glamour. Todos os notáveis da região estiveram presentes, incluindo claro os membros dos i-glamour.
A cerimónia propriamente dita teve lugar no Bar Sedução, local onde os noivos se conheceram, sendo presidida pelo Pastor Alcides Boateiro. Alcides é chefe da Igreja da Terra e do Paraíso, sedeada no Vale da Amoreira, para além de ser também relações públicas do Bar, pintor da construção civil e ainda tem tempo para gerir um pequeno negócio de ervas importadas, ao que consta, do Brasil. Berta é crente desta Fé e fez questão de casar segundo a sua religião. “Facadas”, sabendo do mau feitio de Berta, não quis contrariar a noiva.
O noivo ia num estilo único e irreverente. O fato foi criado pelo Silas Maia, um estilista de etnia cigana que costuma vender os seus trabalhos nas Feiras da Moita e Azeitão e também junto à prisão do Pinheiro da Cruz. Num “Azul Selecção da Argentina”, a cair de forma magistral na camisa amarela e gravata rosa choque, o fato do noivo foi um caso sério de popularidade entre os convidados.
A noiva decidiu-se pela tradição, optando por um vestido branco comprado na Loja Miss Miss. Esta loja situa-se na Rua de Trás-os-Montes, na Baixa da Banheira. Embora seja especialista em cortinados e panos de mesa, a Dona Maria (proprietária da loja) deu um jeito e fez um vestido bastante aceitável.
Após a troca de alianças foi tempo de partir para a festa. Zé Caxias cedeu a sua propriedade na Fonte da Prata. Quinze metros quadrados junto ao Rio, ao dispor dos 60 convidados (ao que se juntaram mais 30/40 curiosos), em contacto permanente com a natureza selvagem (Caxias ainda não domesticou os ratos e os mosquitos) e com os odores da maré-baixa.
Com o repasto servido pela tasca do Azedo e com a música dos Bicho Boys e dos i-glamour a festa prolongou-se. Até se prolongou demais. Ninguém reparou na subida da Maré que inundou o espaço. Mas é como diz o povo.”Casamento molhado, casamento abençoado”.