quinta-feira, julho 17, 2008

Manual do Guerreiro Niitsumy – Capítulo Primeiro

- O Guerreiro Niitsumy deve ser um modelo de virtude e honra. Deve dizer sempre a verdade, não deve, em caso algum, praguejar, falar com a boca cheia de comida e deve ser capaz de permanecer em posição completamente erecta mesmo quando está aflitinho para fazer chichi ou cocó.
- O Guerreiro Niitsumy não deve confraternizar com Yetis de pêlo longo. São bichos extremamente instáveis quando consomem vinho tinto e um coice de Yeti pode pôr fim a uma brilhante carreira.
- O Guerreiro Niitsumy não deve andar armado fora das horas de serviço. Como armas incluem-se sabres, fisgas, palhinhas e talões do Modelo de valor igual ou superior a 100 euros.

sexta-feira, julho 11, 2008

As Histórias do Bolinha III

Há coincidências engraçadas... Parabéns Zé!
O alvoroço criado só poderia significar uma coisa: Bolinha em acção! Rodeado por uma legião de amigos, caminhava calmo (e manco) pelo Campus na direcção da casa-de-banho do Edifício Central. Zé Martelo havia trazido uma espécie de pomada milagrosa com a qual pretendia curar Bolinha da entorse no pé direito. Todos queriam assistir ao milagre.
A casa-de-banho era pequena para albergar tanta gente. Uns empoleirados nas paredes laterais da retrete, outros dentro do próprio cubículo ladeando o “paciente”, outros ainda à porta aguardando novas lá do interior.
O pé do Bolinha estava qualquer coisa de medonho. A cor roxa (acho eu) provocada pela entorse quase chegava ao joelho. No fundo lembrava uma enorme batata-doce com dedos.
Zé, com a delicadeza que o caracteriza, iniciou o tratamento agarrando no chispe do Bolinha como se estivesse a preparar massa de pão.
- Então pá… está tudo bem? – Perguntou enquanto “amassava” o pé do desgraçado.
- Sim… es… está tudo óptimo! – Respondeu o Bolinha com um sorriso forçado nos lábios e uma lágrima no canto do olho.
- Estás a chorar pá?
- Achas?! Ah ah ah… estás louco! Eu lá ia chorar por causa dumas massagenzitas no pé!
A rapaziada estava duplamente impressionada. Por um lado a disformidade horripilante do pé, por outro a acalmia do Bolinha perante a adversidade. Zé não entendeu a ironia nas palavras do Bolinha. Achou que podia ir mais além, que podia esfregar ainda mais aquela espécie de pedúnculo que outrora tinha servido para caminhar e para servir de apoio ao corpo.
As dores começavam a ser mais do que insuportáveis. Bolinha parou a respiração e começou a assobiar. A melodia suave do assobio era duma música antiga que ele tinha ouvido num filme. É então que algo acontece: A rapaziada começou a assobiar a melodia acompanhando o Bolinha. O som foi crescendo e às tantas ecoava estrondosamente no interior da casa-de-banho espalhando-se pelos corredores e salas do Edifício.
E aos poucos a dor lá foi passando…


A melodia era esta...

quinta-feira, julho 03, 2008

Maré-cheia

A uma maré-vazia sucede-se uma maré-cheia. O rio tem os seus ciclos, tal como a vida. É bom ver os lodos cobertos pelo prateado do Tejo, ouvir o chapinhar das tainhas, cheirar a maresia trazida pelos ventos do norte. É para esses momentos que vivo. É neles que me inspiro.
Partir pela manhã na minha herdada barcaça, na subida da maré, indo até à Ilha do Rato, é um ritual que sigo desde que me lembro de existir. Comecei esta romaria com o meu Tio-Avô, o saudoso “Custou” Caxias. A alcunha provém das semelhanças físicas e de hábitos com o velho lobo-do-mar francês. Este meu tio possuía uma cultura impar, alicerçada nas horas passadas a jogar à bisca lambida e ao dominó com outros marinheiros.
Para além de marinheiro e estudioso do mar foi também um grande mecenas, tendo criado a famosa e tantas vezes incompreendida Fundação Caxias.
A Fundação, com sede na Tasca do Azedo, tem a responsabilidade cívica de apoiar jovens com valor, nomeadamente jogadores de dominó, poetas, músicos e todos aqueles que de alguma forma desejem viver da sua arte. Os tipos de apoio variam consoante a qualidade e experiência a nível artístico, podendo ir desde a motivante palmadinha nas costas até à entrega duma bolsa mensal. A bolsa pode alternar entre o azul-bebé, o rosa choque e o preto e tem fecho éclair. Contém várias coisas no seu interior como um isqueiro, canetas Bic (laranja e cristal), um baralho de cartas, dois bilhetes de autocarro dos Colectivos do Barreiro, saquetas de Ultra-levur e um after-shave da loja dos chineses.
Agora vou porque o tempo escoa. A Ilha do Rato espera-me para lá deste mar-chão. Voltarei na descida da maré, isto se o casco não decidir que é hoje que se rende à investida do rio ou se a lendária Ninfa não me raptar, mantendo-me cativo (contra a minha vontade, claro) nos areais da Ilha. Se esta última coisa suceder não se incomodem a pedir ajuda, eu cá me hei-de desenrascar!

sexta-feira, junho 20, 2008

O nosso último Concerto

O soalho de madeira polida que cobria o palco fez-me recordar o início. Era o mesmo tom da madeira dos bancos do barco “Pinhal Novo”, local onde conhecemos o Crazy Charm.
Mais de mil e quinhentas horas cruzando o Tejo, conversando, planeando, sonhando.
“A minha voz é assim uma mistura entre Júlio Iglésias e um martelo pneumático”, disse-nos ele.
Stylish, que na altura já adoptara o estilo invertido, fazendo tudo (incluindo a fala) ao contrário, franziu-lhe a nuca e disse: “Da Fonte da Prata deves ser tu o rouxinol!”.
Era de longe o nosso maior concerto. O armazém do Ti’Bezana tinha sido ampliado. Outrora confinado a quatro paredes e a um telhado em fibrocimento, um acidente com o tractor e o vento forte do último Inverno conferiam agora como limites do espaço a cerca da linha do comboio e o céu estrelado.
Estava lá gente de toda a região. Alguns movidos pela curiosidade de verem ao vivo a "Maior Banda de Charming Punk Rock do Universo". Outros porque tinham ouvido dizer que os I-Glamour eram um grupo de moçoilas apessoadas que faziam um espectáculo ao estilo cabaret francês. Este segundo grupo mostrou-se de alguma forma desiludido quando viu em palco quatro marmanjos de fato de gala e chapéu de cuco, com buço a mais e peito a menos para serem dançarinas francesas. Com a multidão em fúria e dando seguimento ao meu poder de atracção acabei por levar com uma patanisca de bacalhau no sobrolho.
Era o nosso último Concerto… a nossa última música… as nossas últimas frases enquanto animais de palco…

“De manhã na Tasca
A beber um vinho rasca
E a comer um coirato
Que até me soube a pato….

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh Grandes ideias! Boa noite… fomos os I-Glamour… foge rápido Talk que os gajos estão a arrancar as cadeiras do chão!”

terça-feira, junho 17, 2008

As Histórias do Bolinha – II



- Não me consigo lembrar da música da Guerra das Estrelas…
- Não?! É fácil pá… então: Tantantan Tan Tantantan Tan… Tan Tan Tan
- Ah pois é! E a do Super-Homem, lembras-te?
- ….
- Então?
- È pá… não! E tu?
- Também não!
O Bolinha raramente usava camisas com botões normais. Preferia usar as de botões de molas. “São mais fáceis de abrir e de fechar!” dizia ele. Naquele dia tinha optado por uma de botões normais. Cruzávamos em passo acelerado o parque de estacionamento na direcção do “tanque de guerra” do Krillin.
Acontece então algo inesperado. De cabelos negros ao vento lá estava ela a sair do carro. Bolinha ao vê-la entra num estado difícil de descrever. Como que possuído por uma estranha força, iniciou então uma demanda que ficou para a história… para a nossa história!
- É pá… pessoal! Já me lembro da música… Tan Tantantantan Tan Tan Tan… – disse ele de forma entusiasmada… demasiadamente entusiasmada.
Nisto, enquanto cantarolava começou a correr na direcção dela. Esquecido da camisa que trazia, tentou abri-la ao estilo do Clark Kent. Os botões da camisa saltaram em todas as direcções, deixando a peitaça do Bolinha ao léu. Correu desalmadamente, correu e correu. À medida que se aproximava e ao ver que ela parara a olhar para ele começou lentamente a regressar a si. Olhou para trás e viu-nos de olhar esbugalhado (e boca aberta) a observá-lo. Acabou por parar, já a poucos metros dela.
- Olá Bolinha! Tudo bem? Que aconteceu à tua camisa? – Perguntou-lhe ela.
- Ah…pois… partiram-se os botões… por causa do Super-Homem!
- Do Super-Homem?!
- Sim… quer dizer… por causa da música do Super-Homem!
- Ah… mas olha que a música que vinhas a cantar era a do Indiana Jones!
- Não era nada! A do Indiana Jones é diferente… começa assim queres ver…
- Espera… não vais entrar na personagem e dar-me com o chicote pois não? – Brincou ela.
- Não… nas meninas não se bate nem com uma flor!

quinta-feira, junho 12, 2008

A Estática do Talk Talk

Quem me conhece sabe que eu não danço. Dirão alguns: “É uma questão de estilo, assim estático no meio da pista o tipo faz lembrar uma espécie de Menir gigantesco… é bestial e as miúdas adoram!”. Dirão outros: “O rapaz nasceu com dois pés esquerdos, por isso é que na escola quando íamos jogar à bola e estávamos em número impar ele não jogava e fazia de vendedor de coiratos”.
Isto são mitos que se vão espalhando, não correspondendo necessariamente à verdade.
A razão pela qual eu não danço, tendo mesmo adquirido o cognome de "o Obelisco da Baixa da Banheira", é outra.
Estávamos nos anos 90. A banda do momento eram os Boca Seca. Lideres do movimento “Granja” nascido e criado no “underground” da Vinha das Pedras. Não era propriamente um som que desse para dançar. Rico em batidas fortes, ganidos e guitarras que se partiam, tratava-se mais dum estilo musical a puxar para a introspecção e procura do sentido da vida.
Como qualquer adolescente da região fui influenciado por aquele som brutal. Certo dia consegui falar com o vocalista, o Smites Babarracho. Não foi fácil compreendê-lo pois era um tipo que se exprimia através do emprego de metáforas e mensagens codificadas, para além de na altura estar a ruminar uma sandes de torresmos ao mesmo tempo que falava.
- Ouve rapazote – disse-me ele exibindo de bocarra aberta um “bolo alimentar” que resultara da mescla de pão, torresmos e saliva – A malta não curte este tipo de cenas “méne”. Não vou aqui armar uma espiga por causa disso… mas não gramei ver-te a ti e a outros panhonhas a dançar ao som das nossas músicas. O Granja é como o Fado, não se dança, sente-se.
Ouvir isto da boca do ídolo, ainda para mais uma boca cheia de comida, é chocante para um miúdo de 14 anos. Tão chocante tão chocante que nunca mais fui capaz de mexer os pés ao som duma música. A não ser que fosse o Moonwalking … mas isso é outra história.