A casa-de-banho era pequena para albergar tanta gente. Uns empoleirados nas paredes laterais da retrete, outros dentro do próprio cubículo ladeando o “paciente”, outros ainda à porta aguardando novas lá do interior.
O pé do Bolinha estava qualquer coisa de medonho. A cor roxa (acho eu) provocada pela entorse quase chegava ao joelho. No fundo lembrava uma enorme batata-doce com dedos.
Zé, com a delicadeza que o caracteriza, iniciou o tratamento agarrando no chispe do Bolinha como se estivesse a preparar massa de pão.
- Então pá… está tudo bem? – Perguntou enquanto “amassava” o pé do desgraçado.
- Sim… es… está tudo óptimo! – Respondeu o Bolinha com um sorriso forçado nos lábios e uma lágrima no canto do olho.
- Estás a chorar pá?
- Achas?! Ah ah ah… estás louco! Eu lá ia chorar por causa dumas massagenzitas no pé!
A rapaziada estava duplamente impressionada. Por um lado a disformidade horripilante do pé, por outro a acalmia do Bolinha perante a adversidade. Zé não entendeu a ironia nas palavras do Bolinha. Achou que podia ir mais além, que podia esfregar ainda mais aquela espécie de pedúnculo que outrora tinha servido para caminhar e para servir de apoio ao corpo.
As dores começavam a ser mais do que insuportáveis. Bolinha parou a respiração e começou a assobiar. A melodia suave do assobio era duma música antiga que ele tinha ouvido num filme. É então que algo acontece: A rapaziada começou a assobiar a melodia acompanhando o Bolinha. O som foi crescendo e às tantas ecoava estrondosamente no interior da casa-de-banho espalhando-se pelos corredores e salas do Edifício.
E aos poucos a dor lá foi passando…
A melodia era esta...