quinta-feira, julho 03, 2008

Maré-cheia

A uma maré-vazia sucede-se uma maré-cheia. O rio tem os seus ciclos, tal como a vida. É bom ver os lodos cobertos pelo prateado do Tejo, ouvir o chapinhar das tainhas, cheirar a maresia trazida pelos ventos do norte. É para esses momentos que vivo. É neles que me inspiro.
Partir pela manhã na minha herdada barcaça, na subida da maré, indo até à Ilha do Rato, é um ritual que sigo desde que me lembro de existir. Comecei esta romaria com o meu Tio-Avô, o saudoso “Custou” Caxias. A alcunha provém das semelhanças físicas e de hábitos com o velho lobo-do-mar francês. Este meu tio possuía uma cultura impar, alicerçada nas horas passadas a jogar à bisca lambida e ao dominó com outros marinheiros.
Para além de marinheiro e estudioso do mar foi também um grande mecenas, tendo criado a famosa e tantas vezes incompreendida Fundação Caxias.
A Fundação, com sede na Tasca do Azedo, tem a responsabilidade cívica de apoiar jovens com valor, nomeadamente jogadores de dominó, poetas, músicos e todos aqueles que de alguma forma desejem viver da sua arte. Os tipos de apoio variam consoante a qualidade e experiência a nível artístico, podendo ir desde a motivante palmadinha nas costas até à entrega duma bolsa mensal. A bolsa pode alternar entre o azul-bebé, o rosa choque e o preto e tem fecho éclair. Contém várias coisas no seu interior como um isqueiro, canetas Bic (laranja e cristal), um baralho de cartas, dois bilhetes de autocarro dos Colectivos do Barreiro, saquetas de Ultra-levur e um after-shave da loja dos chineses.
Agora vou porque o tempo escoa. A Ilha do Rato espera-me para lá deste mar-chão. Voltarei na descida da maré, isto se o casco não decidir que é hoje que se rende à investida do rio ou se a lendária Ninfa não me raptar, mantendo-me cativo (contra a minha vontade, claro) nos areais da Ilha. Se esta última coisa suceder não se incomodem a pedir ajuda, eu cá me hei-de desenrascar!

sexta-feira, junho 20, 2008

O nosso último Concerto

O soalho de madeira polida que cobria o palco fez-me recordar o início. Era o mesmo tom da madeira dos bancos do barco “Pinhal Novo”, local onde conhecemos o Crazy Charm.
Mais de mil e quinhentas horas cruzando o Tejo, conversando, planeando, sonhando.
“A minha voz é assim uma mistura entre Júlio Iglésias e um martelo pneumático”, disse-nos ele.
Stylish, que na altura já adoptara o estilo invertido, fazendo tudo (incluindo a fala) ao contrário, franziu-lhe a nuca e disse: “Da Fonte da Prata deves ser tu o rouxinol!”.
Era de longe o nosso maior concerto. O armazém do Ti’Bezana tinha sido ampliado. Outrora confinado a quatro paredes e a um telhado em fibrocimento, um acidente com o tractor e o vento forte do último Inverno conferiam agora como limites do espaço a cerca da linha do comboio e o céu estrelado.
Estava lá gente de toda a região. Alguns movidos pela curiosidade de verem ao vivo a "Maior Banda de Charming Punk Rock do Universo". Outros porque tinham ouvido dizer que os I-Glamour eram um grupo de moçoilas apessoadas que faziam um espectáculo ao estilo cabaret francês. Este segundo grupo mostrou-se de alguma forma desiludido quando viu em palco quatro marmanjos de fato de gala e chapéu de cuco, com buço a mais e peito a menos para serem dançarinas francesas. Com a multidão em fúria e dando seguimento ao meu poder de atracção acabei por levar com uma patanisca de bacalhau no sobrolho.
Era o nosso último Concerto… a nossa última música… as nossas últimas frases enquanto animais de palco…

“De manhã na Tasca
A beber um vinho rasca
E a comer um coirato
Que até me soube a pato….

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh Grandes ideias! Boa noite… fomos os I-Glamour… foge rápido Talk que os gajos estão a arrancar as cadeiras do chão!”

terça-feira, junho 17, 2008

As Histórias do Bolinha – II



- Não me consigo lembrar da música da Guerra das Estrelas…
- Não?! É fácil pá… então: Tantantan Tan Tantantan Tan… Tan Tan Tan
- Ah pois é! E a do Super-Homem, lembras-te?
- ….
- Então?
- È pá… não! E tu?
- Também não!
O Bolinha raramente usava camisas com botões normais. Preferia usar as de botões de molas. “São mais fáceis de abrir e de fechar!” dizia ele. Naquele dia tinha optado por uma de botões normais. Cruzávamos em passo acelerado o parque de estacionamento na direcção do “tanque de guerra” do Krillin.
Acontece então algo inesperado. De cabelos negros ao vento lá estava ela a sair do carro. Bolinha ao vê-la entra num estado difícil de descrever. Como que possuído por uma estranha força, iniciou então uma demanda que ficou para a história… para a nossa história!
- É pá… pessoal! Já me lembro da música… Tan Tantantantan Tan Tan Tan… – disse ele de forma entusiasmada… demasiadamente entusiasmada.
Nisto, enquanto cantarolava começou a correr na direcção dela. Esquecido da camisa que trazia, tentou abri-la ao estilo do Clark Kent. Os botões da camisa saltaram em todas as direcções, deixando a peitaça do Bolinha ao léu. Correu desalmadamente, correu e correu. À medida que se aproximava e ao ver que ela parara a olhar para ele começou lentamente a regressar a si. Olhou para trás e viu-nos de olhar esbugalhado (e boca aberta) a observá-lo. Acabou por parar, já a poucos metros dela.
- Olá Bolinha! Tudo bem? Que aconteceu à tua camisa? – Perguntou-lhe ela.
- Ah…pois… partiram-se os botões… por causa do Super-Homem!
- Do Super-Homem?!
- Sim… quer dizer… por causa da música do Super-Homem!
- Ah… mas olha que a música que vinhas a cantar era a do Indiana Jones!
- Não era nada! A do Indiana Jones é diferente… começa assim queres ver…
- Espera… não vais entrar na personagem e dar-me com o chicote pois não? – Brincou ela.
- Não… nas meninas não se bate nem com uma flor!

quinta-feira, junho 12, 2008

A Estática do Talk Talk

Quem me conhece sabe que eu não danço. Dirão alguns: “É uma questão de estilo, assim estático no meio da pista o tipo faz lembrar uma espécie de Menir gigantesco… é bestial e as miúdas adoram!”. Dirão outros: “O rapaz nasceu com dois pés esquerdos, por isso é que na escola quando íamos jogar à bola e estávamos em número impar ele não jogava e fazia de vendedor de coiratos”.
Isto são mitos que se vão espalhando, não correspondendo necessariamente à verdade.
A razão pela qual eu não danço, tendo mesmo adquirido o cognome de "o Obelisco da Baixa da Banheira", é outra.
Estávamos nos anos 90. A banda do momento eram os Boca Seca. Lideres do movimento “Granja” nascido e criado no “underground” da Vinha das Pedras. Não era propriamente um som que desse para dançar. Rico em batidas fortes, ganidos e guitarras que se partiam, tratava-se mais dum estilo musical a puxar para a introspecção e procura do sentido da vida.
Como qualquer adolescente da região fui influenciado por aquele som brutal. Certo dia consegui falar com o vocalista, o Smites Babarracho. Não foi fácil compreendê-lo pois era um tipo que se exprimia através do emprego de metáforas e mensagens codificadas, para além de na altura estar a ruminar uma sandes de torresmos ao mesmo tempo que falava.
- Ouve rapazote – disse-me ele exibindo de bocarra aberta um “bolo alimentar” que resultara da mescla de pão, torresmos e saliva – A malta não curte este tipo de cenas “méne”. Não vou aqui armar uma espiga por causa disso… mas não gramei ver-te a ti e a outros panhonhas a dançar ao som das nossas músicas. O Granja é como o Fado, não se dança, sente-se.
Ouvir isto da boca do ídolo, ainda para mais uma boca cheia de comida, é chocante para um miúdo de 14 anos. Tão chocante tão chocante que nunca mais fui capaz de mexer os pés ao som duma música. A não ser que fosse o Moonwalking … mas isso é outra história.

segunda-feira, junho 09, 2008

As Histórias do Bolinha – I

- Os olhos dela são quase pretos… só à luz se nota que são castanhos escuros – Dizia o Bolinha com o sorriso mais parvo do Universo! – E depois a forma dos olhos muda… muda consoante está nervosa ou calma, triste ou alegre…
- A forma?!
- Sim… nunca reparaste?
-…
- Pois… hás-de reparar!
- Está bem, e quando é que falas com ela e lhe dizes isso?
- Isso o quê?!
- Então… o que acabaste de dizer…
- Não sou capaz, não consigo juntar duas palavras seguidas ao pé dela!
O Bolinha era mesmo assim. Um coração enorme escondido dentro duma cápsula de timidez que o impedia de demonstrar o tipo fantástico que era. Excepção feita aos amigos, que tinham a sorte de o conhecer.
- Bolinha… são 13:20. Ela está prestes a passar na marginal. Vá… a gente fica cá em cima a torcer por ti e tu vais lá falar com ela.
- Hã!? Agora?! É pá… isso não pode ficar para amanhã? É que eu hoje tenho que…
- Cala-te e vai! Bora!
Cem íngremes metros separavam o Café Tobias da marginal. Bolinha iniciou a descida pela calçada ainda humedecida pela queda de chuva matinal. Os seus passos eram lentos mas o seu coração disparava a uma velocidade estonteante. Ainda nem a meio ia quando ela surge no seu campo de visão, a cruzar a marginal, junto ao pequeno muro branco que encostava à margem do rio. Bolinha ao vê-la engoliu em seco e estancou o passo.
Se há gajo com ideias rápidas e parvas, esse gajo é o Fred! Ao ver a hesitação do Bolinha correu na sua direcção e enquanto gritava “mexe-me esse cú gordo” deu-lhe um empurrão lançando o pobre rapaz numa descida vertiginosa. Bolinha, incapaz de travar, descambou pela rua abaixo, berrando desesperadamente!
Ela ouviu a algazarra e parou. Ao ver aquela massa de carne anafada aproximar-se a grande velocidade entrou em pânico, no entanto manteve-se imóvel, talvez petrificada pelo susto.
- Desvia-te … desvia-te que eu não tenho travões! – Gritou-lhe o Bolinha.
Nisto ela dá um salto para a frente saindo da trajectória do Bolinha que em grande estilo pula sobre o muro e cai num mergulho de chapa na água, provocando uma onda de proporções inimagináveis.
Duas horas depois estávamos todos sentados no muro a fazer companhia ao Bolinha, esperando que ele secasse para poder entrar no autocarro sem dar nas vistas. Todos menos ela que entretanto tinha ido tratar dos seus afazeres.
- Só a mim… isto só me acontece a mim!
- Calma rapaz, pelo menos ela agora já sabe algumas coisas sobre ti…
- O quê? Que eu não tenho travões? Que eu sou maluco?
- Não pá… que tu não sabes nadar, que tens amigos que te adoram… que a grua dos Bombeiros te consegue elevar…

quinta-feira, maio 29, 2008

Apetite artístico

Eu prezo os artistas. Especialmente os mais genuínos, aqueles que usam boina. Talvez por isso vá aos sítios que eles frequentam para ter a oportunidade de inalar um pouco da sua criatividade e intelectualidade. Tento entrosar-me e aproveito para lançar umas frases previamente elaboradas com a intenção de aos poucos ir entrando no restrito círculo de intelectuais e artistas da região.
No último sábado, numa dessas incursões, fui ao Bar “Cachopa Arrebita!”. Brotava do interior do estabelecimento uma áurea de intelectualidade rochosa que quase me levou ao deslumbramento.
Era uma noite especial. Um tal de Ermelindo Sarrafas recitava uns textos do alto dum palanque instalado no lado oposto ao bar. Acompanhava-o outro indivíduo vestido num estilo “espantalho em campos de trigo” que retirava sons de percussão dum tijolo com um martelo. Do pequeno livro de nome “Bolinhos da Avozinha” o orador, com aquela garra dos declamadores, gritava frases duma beleza feroz como “junta-lhe duzentas e cinquenta gramas de margarina” ou “polvilhar com canela a teu gosto”. Sempre com o rufar do martelo a dar o mote.
O bar estava cheio. O olhar daquela gente brilhava como as estrelas, perdidos em sonhos de contos de fadas… deliciados.
Eu, enleado naquele ambiente, não conseguia entender a profundidade do momento. Sentia apenas uma coisa: uma irresistível vontade de comer um bolinho da Avozinha. Esperei o fim da actuação e dirigi-me ao artista declamador e perguntei:
- Boa noite. E então esses tais bolos de canela são mesmo bons? E são fáceis de fazer? Aconselha-os com um cafezinho ou com chá?
Não obtive resposta. O olhar de reprovação do sujeito trespassou-me como um gume de aço afiado. Virou-me as costas a abanar a cabeça. Fiquei irritado e não resisti a lançar uma farpa em voz alta antes de sair:
- Está bem oh guloso, fica com os bolinhos só para ti! Espero que te engasgues!