quinta-feira, junho 12, 2008

A Estática do Talk Talk

Quem me conhece sabe que eu não danço. Dirão alguns: “É uma questão de estilo, assim estático no meio da pista o tipo faz lembrar uma espécie de Menir gigantesco… é bestial e as miúdas adoram!”. Dirão outros: “O rapaz nasceu com dois pés esquerdos, por isso é que na escola quando íamos jogar à bola e estávamos em número impar ele não jogava e fazia de vendedor de coiratos”.
Isto são mitos que se vão espalhando, não correspondendo necessariamente à verdade.
A razão pela qual eu não danço, tendo mesmo adquirido o cognome de "o Obelisco da Baixa da Banheira", é outra.
Estávamos nos anos 90. A banda do momento eram os Boca Seca. Lideres do movimento “Granja” nascido e criado no “underground” da Vinha das Pedras. Não era propriamente um som que desse para dançar. Rico em batidas fortes, ganidos e guitarras que se partiam, tratava-se mais dum estilo musical a puxar para a introspecção e procura do sentido da vida.
Como qualquer adolescente da região fui influenciado por aquele som brutal. Certo dia consegui falar com o vocalista, o Smites Babarracho. Não foi fácil compreendê-lo pois era um tipo que se exprimia através do emprego de metáforas e mensagens codificadas, para além de na altura estar a ruminar uma sandes de torresmos ao mesmo tempo que falava.
- Ouve rapazote – disse-me ele exibindo de bocarra aberta um “bolo alimentar” que resultara da mescla de pão, torresmos e saliva – A malta não curte este tipo de cenas “méne”. Não vou aqui armar uma espiga por causa disso… mas não gramei ver-te a ti e a outros panhonhas a dançar ao som das nossas músicas. O Granja é como o Fado, não se dança, sente-se.
Ouvir isto da boca do ídolo, ainda para mais uma boca cheia de comida, é chocante para um miúdo de 14 anos. Tão chocante tão chocante que nunca mais fui capaz de mexer os pés ao som duma música. A não ser que fosse o Moonwalking … mas isso é outra história.

segunda-feira, junho 09, 2008

As Histórias do Bolinha – I

- Os olhos dela são quase pretos… só à luz se nota que são castanhos escuros – Dizia o Bolinha com o sorriso mais parvo do Universo! – E depois a forma dos olhos muda… muda consoante está nervosa ou calma, triste ou alegre…
- A forma?!
- Sim… nunca reparaste?
-…
- Pois… hás-de reparar!
- Está bem, e quando é que falas com ela e lhe dizes isso?
- Isso o quê?!
- Então… o que acabaste de dizer…
- Não sou capaz, não consigo juntar duas palavras seguidas ao pé dela!
O Bolinha era mesmo assim. Um coração enorme escondido dentro duma cápsula de timidez que o impedia de demonstrar o tipo fantástico que era. Excepção feita aos amigos, que tinham a sorte de o conhecer.
- Bolinha… são 13:20. Ela está prestes a passar na marginal. Vá… a gente fica cá em cima a torcer por ti e tu vais lá falar com ela.
- Hã!? Agora?! É pá… isso não pode ficar para amanhã? É que eu hoje tenho que…
- Cala-te e vai! Bora!
Cem íngremes metros separavam o Café Tobias da marginal. Bolinha iniciou a descida pela calçada ainda humedecida pela queda de chuva matinal. Os seus passos eram lentos mas o seu coração disparava a uma velocidade estonteante. Ainda nem a meio ia quando ela surge no seu campo de visão, a cruzar a marginal, junto ao pequeno muro branco que encostava à margem do rio. Bolinha ao vê-la engoliu em seco e estancou o passo.
Se há gajo com ideias rápidas e parvas, esse gajo é o Fred! Ao ver a hesitação do Bolinha correu na sua direcção e enquanto gritava “mexe-me esse cú gordo” deu-lhe um empurrão lançando o pobre rapaz numa descida vertiginosa. Bolinha, incapaz de travar, descambou pela rua abaixo, berrando desesperadamente!
Ela ouviu a algazarra e parou. Ao ver aquela massa de carne anafada aproximar-se a grande velocidade entrou em pânico, no entanto manteve-se imóvel, talvez petrificada pelo susto.
- Desvia-te … desvia-te que eu não tenho travões! – Gritou-lhe o Bolinha.
Nisto ela dá um salto para a frente saindo da trajectória do Bolinha que em grande estilo pula sobre o muro e cai num mergulho de chapa na água, provocando uma onda de proporções inimagináveis.
Duas horas depois estávamos todos sentados no muro a fazer companhia ao Bolinha, esperando que ele secasse para poder entrar no autocarro sem dar nas vistas. Todos menos ela que entretanto tinha ido tratar dos seus afazeres.
- Só a mim… isto só me acontece a mim!
- Calma rapaz, pelo menos ela agora já sabe algumas coisas sobre ti…
- O quê? Que eu não tenho travões? Que eu sou maluco?
- Não pá… que tu não sabes nadar, que tens amigos que te adoram… que a grua dos Bombeiros te consegue elevar…

quinta-feira, maio 29, 2008

Apetite artístico

Eu prezo os artistas. Especialmente os mais genuínos, aqueles que usam boina. Talvez por isso vá aos sítios que eles frequentam para ter a oportunidade de inalar um pouco da sua criatividade e intelectualidade. Tento entrosar-me e aproveito para lançar umas frases previamente elaboradas com a intenção de aos poucos ir entrando no restrito círculo de intelectuais e artistas da região.
No último sábado, numa dessas incursões, fui ao Bar “Cachopa Arrebita!”. Brotava do interior do estabelecimento uma áurea de intelectualidade rochosa que quase me levou ao deslumbramento.
Era uma noite especial. Um tal de Ermelindo Sarrafas recitava uns textos do alto dum palanque instalado no lado oposto ao bar. Acompanhava-o outro indivíduo vestido num estilo “espantalho em campos de trigo” que retirava sons de percussão dum tijolo com um martelo. Do pequeno livro de nome “Bolinhos da Avozinha” o orador, com aquela garra dos declamadores, gritava frases duma beleza feroz como “junta-lhe duzentas e cinquenta gramas de margarina” ou “polvilhar com canela a teu gosto”. Sempre com o rufar do martelo a dar o mote.
O bar estava cheio. O olhar daquela gente brilhava como as estrelas, perdidos em sonhos de contos de fadas… deliciados.
Eu, enleado naquele ambiente, não conseguia entender a profundidade do momento. Sentia apenas uma coisa: uma irresistível vontade de comer um bolinho da Avozinha. Esperei o fim da actuação e dirigi-me ao artista declamador e perguntei:
- Boa noite. E então esses tais bolos de canela são mesmo bons? E são fáceis de fazer? Aconselha-os com um cafezinho ou com chá?
Não obtive resposta. O olhar de reprovação do sujeito trespassou-me como um gume de aço afiado. Virou-me as costas a abanar a cabeça. Fiquei irritado e não resisti a lançar uma farpa em voz alta antes de sair:
- Está bem oh guloso, fica com os bolinhos só para ti! Espero que te engasgues!

segunda-feira, maio 26, 2008

Bebe que isso passa!

“Não há mulheres feias… há é homens que bebem pouco!”. A afirmação do Licínio deixou-me um pouco perplexo. Confuso até. O cheiro a courato assado que empestava a sala também não ajudava a clarificar a mente. A ventilação do local era feita através dum buraco na parede provocado por um disparo de carabina. O velho Manecas, o Camões da Verderena, sempre gostou de praticar o tiro aos pratos nas tardes de Domingo. Ter Parkinson e um olho vesgo são, no entanto, claros entraves à pontaria afinada!
“Mas eu já bebi oito imperiais e continuo a achar que a moça não é propriamente a Miss Alhos Vedros”, respondeu o “Facadas”.
“Pois, bebeste pouco. Para uma tipa daquele “calibre” precisas no mínimo de 15 imperiais!”.
“Bem… eu também não estou aqui para ver mulheres bonitas. A Tasca do Azedo não é sítio para isso… reparem na nova empregada: tem um bigode maior do que o meu!”
“Sim… e esta está ao balcão, imagina as que trabalham no armazém!”
Estava na hora de alguém com um pingo de dignidade intervir. Começava a ficar revoltado com tamanha insensibilidade. Aquelas mulheres, por baixo das carcaças desleixadas, eram seres-humanos com sensibilidade e coração, merecedoras de respeito. Decidi falar.
“Oh senhores não sejam assim, vocês também são uma rica parelha de saguins, feios como uns bodes, e eu estou aqui a conversar convosco e a beber uns copos… quer dizer… beleza não é tudo.”
“Feios?! Achas que somos feios?”
“É pá… bonito é que tu não és!”
“Fogo Talk… então porquê? O que te leva a achar que eu, “Facadas” Canhoto, o Don Juan da Vinha das Pedras, não sou um tipo jeitoso? Vá… diz lá!”
“Não sei explicar “Facadas”… talvez seja dos dentes ao estilo “piano quase sem teclas brancas”, ou então são os pêlos do nariz que recordam toda aquela vegetação da Mata da Machada no início da Primavera, o facto é que há algo em ti que me diz que não serás propriamente um tipo atraente!”
“E eu Talk e eu?!”. Perguntou o Licínio Chispes.
“Bem… não sei o que te dizer…”
“Achas que ainda sou mais feioso que o “Facadas”?!”
“Não… quer dizer, creio que daqui a 6 ou 7 imperiais já não!”

quarta-feira, maio 21, 2008

Chácha Talk

Dois meses passados na Irlanda e finalmente temos o Crazy Charm de volta. O dia-a-dia da maior banda de charming punk rock do Mundo volta assim ao normal. Uma hora depois do combinado, aparece o gajo no café do Zeca com ar de “Não se passa nada”.
- Ena… estou a ver que trouxeste a pontualidade da Irlanda! - Disse-lhe eu.
- Trouxe trouxe… isso e um trevo de quatro folhas para te oferecer… só não achei foi um duende!
- Procuraste bem?! Diz-se que vivem nos campos verdejantes, debaixo das bostas de vaca!
- Pois aí não procurei… bostas é mais o teu pelouro! Vi foi uns tipos muito parecidos contigo pá!
- Ah sim?! Quer dizer que a Irlanda tem gajos giros?
- Não é bem isso… estive numa feira de História Natural, vi umas belas réplicas de hominídeos pré-históricos… isto é, em português que tu percebas, Macacões!
- Pois… disso percebes tu. Não é por acaso que vives numa gruta e comes raízes de árvores e insectos!
- Pois claro… de outra forma seria impossível dar-me contigo… em Roma sê romano, ou melhor, ao pé dum australopiteco sê um australopiteco.
- Sim, australopiteco mas da nobreza. Repara neste ar altivo!
- Sim sim… deves ser o Sir Pitecos!
- É… e tu és um Lorde Magnon!
Alguém na mesa ao lado intervém:
- Bem… vocês tratam-se muito bem!
- Somos como os miúdos – disse eu – Tratamo-nos mal porque somos amigos.
- Ah… está bem! – Respondeu o tipo não muito convencido.
- Não é oh gorila? – voltei à carga.
- É sim… saguim cabeçudo.
- Bem, deixemo-nos disso e vamos falar do que interessa – disse eu – falemos da Banda!
- Da Banda?! É pá isso não… isso é conversa de chácha. Para isso tinha ficado em casa a olhar para uma pintura rupestre e a beber um batido de carocha!

segunda-feira, maio 19, 2008

O fim do Mito – Parte II

Começava a ficar nervoso. A dita prova estava ali em cima da mesa. Um conjunto de folhas A4 presas em argolas com uma capa de plástico de cor alaranjada que dizia: “Guerreiros Niitsumy”. Vinha assinada por um conhecido jornalista de investigação que já tinha desmascarado entre outras a história das pegadas de dinossauro na Praia dos Tesos. Provou-se que Licínio Chispes tinha andado por lá durante uma apanha de lamejinhas. Mais uma vez o tamanho dos pés do Licínio a lançar a confusão.
Comecei a desfolhar o documento e quando dei por mim já estava a bordo duma nave espacial a caminho de Plutão. Tal como a nave do Pete, a minha também não era a Galáctica. Era mais uma espécie de queque gigante, mas em vidro, onde podia olhar tudo à minha volta!
“Então mas os Yetis não existem?!”, perguntei em pânico.
“Não… são ursos polares que viste provavelmente no jardim zoológico”. E de repente vi a Lua a ficar para trás no espelho retrovisor do queque voador.
“E o pardal do Mogodochi que às vezes me fala ao ouvido?!”.
“Imaginação Talk… já pensaste em escrever um livro… ou em ir ao médico?”. Ao olhar para Marte, conclui que afinal não é bem encarnado é mais para o bege.
“Mas… mas e eu já estive lá! Já estive no Tibete… eu, epá eu conheci o Mogodochi!”.
“Tens a certeza? Não estiveste antes na Serra da Estrela? E olha que velhos barbudos vestidos de túnica de seda amarela, com chapéu de cuco e que gostam de fazer sapateado é o que não falta por ai…”. Confirmo, Plutão não é um planeta… é uma bola de ténis, foi pena não me ter lembrado de trazer a raquete.
“Mas… mas eu sou um Guerreiro Niitsumy! Porra… confesso, eu sou um deles… como explicam isto hã?!”
“Ah pois é! Apanhado! Eh eh eh eh eh eh”. Queque de vidro colide com bola de ténis.
“Era isso que nós queríamos… que confessasses que eras um guerreiro Niitsumy! Nós andávamos desconfiados… aquele pardal sempre a poisar no teu ombro… a forma estranha como comes o arroz… tinhas que ser!”, disse o Panchito.
“Oh Pete… já viste isto… apanhado pá! Fogo, eu… apanhado!”.
“Hã!? Epá está calado senão os gambozinos ouvem-te e fogem!”.