quarta-feira, abril 18, 2007

Acabou o café

Já devem ter reparado que eu tenho a mania que sou o número um e mais não sei o quê. Não é a gozar, quem me conhece sabe que sou vaidoso e que estou plenamente convencido das minhas qualidades. Pelo menos em três coisas: A fazer música com duas colheres, na rapidez com que devoro bolachas baunilha e no estilo criativo com que bebo café.
Não é que esta introdução tenha muito a ver com o que vou escrever a seguir, mas para além disto ter que começar de alguma maneira é quase sempre quando estou a beber café que me acontecem coisas esquisitas!
E lá estava eu, na pastelaria, a ler um livro do Pato Donald e a beber o cafezito (desta vez colocando a chávena no bicípite antes de a levar à boca) quando reparei na mesa do lado. Três raparigas com pouco mais do que 18 anos e um tipo das mesmas idades. Ele levantou-se e foi à casa de banho. Elas começaram a bombardear no rapaz. “É um totó”, “Não sei porque andas com ele”, “O que queres, o Vitó só sai comigo às 6ªfeiras…”, “Tás a precisar é de um pequeno-almoço destes aqui do lado!”.
Confesso que foi mesmo esta última frase que me chamou mais a atenção. O “aqui ao lado” era a minha mesa e para além da chávena de café e do livro de BD não havia mais nada em cima dela. Após uns risitos veio a abordagem:
- Desculpe, não tem vergonha de ler livros para crianças?
- Tenho, por isso é que venho para o pé delas lê-los.
- Pois… deves ser é estúpido!
- Poder de encaixe é uma necessidade para quem gosta de dizer graçolas!
- O quê?! Vai mas é à merda!
Entretanto chegou o “Totó” de ar admirado e perguntou à namorada:
- Este gajo estava a meter-se contigo?
- Deixa estar que a gente tratou do assunto
Mesmo assim virou-se para mim e disse:
- Olha lá, algum problema?
- Sim, dois. Um teu outro meu. O teu é que parece que o Vitó vai começar a sair também aos sábados e o meu é que adorava continuar aqui a ouvi-los dizer disparates mas tenho que ir… acabou-se-me o café!

sexta-feira, abril 13, 2007

Sessão de autógrafos

Não sei se o meu aparecimento num programa televisivo teve influência. O tema, “A presença do Homem de Cro-Magnon na Sociedade Actual” no canal III do National Geographic talvez tenha vindo exponenciar de vez a minha popularidade.
Não tive mãos a medir para tantos autógrafos. Foi quase uma loucura! É certo que a entrevista que dei para o programa foi realizada, que decorreu numa gruta, decorreu em dialecto “Cro-magnês” e as minhas vestes (tanga à tigre, ténis, cachimbo e moca) eram um pouco diferentes das que uso enquanto estrela do Charming Punk Rock, mas mesmo assim penso que me reconheceram e o facto influenciou a presença de fãs nesta sessão de autógrafos levada a cabo na Taberna do Salpicado no Rosário.
Os outros membros da banda (mais uma vez) não puderam estar presentes. O Stylish continua a penar com as aftas na nuca, o Crazy Charm aderiu de vez à tribo dos zulus e agora diz que é Pai de Santo e que lê o futuro na massa das pizzas, o Seducer continua detido por contrabando de limalhas de ferro… enfim, resto eu para levar a banda para a frente!
A apresentação do novo álbum correu assim de feição, rodeado daqueles que adoram os I-Glamour. As novas músicas transportam-nos para sonoridades mais melodiosas e calmas, para isso contribui e muito a gaita-de-beiços do Charm e em especial o chocalho da Salsicha, a vaca charolesa do Robalo Fernandes. Contamos ainda com a participação do Luís Keita, o Vice-Rei do Kizomba, numa versão da música Apita o Comboio, onde o Pimba se mistura com o Punk Rock e com os sons africanos num melting pot (o que eu gosto desta expressão!) irresistível.
Não se esqueçam de comprar o CD, estará brevemente disponível na Feira da Vinha das Pedras, que decorre todas as quintas-feiras, na banca da Marianita Maia.

segunda-feira, abril 09, 2007

Cartas de Amor de Licínio Chispes: Carta I

Olá miúda:

Eu sei que achas que eu sou um chaparro. Daqueles bem feiinhos e ressequidos pelo sol, onde até os pardais temem poisar e os cães se recusam a alçar da pata traseira para regar os cogumelos. Mas também, porra, tu não és propriamente a Miss Baixa da Banheira. Especialmente agora que pesas mais de 100 quilos e também por causa daquela recente bebedeira que apanhaste, que te fez ir com os queixos ao chão, partindo-te os últimos dois dentes inteiros que tinhas.
E depois a beleza não é tudo. Há algo mais para além disso. Há a amizade e a confiança. Que mais podes desejar do que um tipo feio? Já reparaste que isso faz baixar a probabilidade de seres traída? Pronto… é verdade que a hipótese se mantém… mas eu não tenho dinheiro para ir à Vivenda da Ti’Chica nem disponibilidade física para pular a cerca do Manel da Adega para ir correr atrás das cabras.
Eu acho sinceramente que nascemos um para o outro. Tu para cozinhares para mim, eu para dizer bem dos teus petiscos, até daqueles rissóis a saber a ranço e do arroz que costumas fazer que mais parece argamassa. Ou então para me coçares as costas enquanto eu te cato a bicheza que teima em habitar a tua farta cabeleira e outras zonas bem mais farfalhudas e encaracoladas.
Moça, eu no fundo sou um romântico, é por isso que escrevo estas linhas com a lágrima a cair-me do sobrolho. Eu sei que está vento e também sei que o areal do Rosário é fino e propicio a lacrimações, mas não é por isso, é que tu sabes como ficam os meus olhos sempre que bebo água-ardente depois de ressacar uma piela de vinho carrascão.
Vá lá… não te armes em esquisita e volta para mim, lembra-te dos bons tempos que passámos, daquelas primeira duas horas até eu conhecer a tua mãe, o parvalhão do teu padrasto e o cão de loiça que tu tratas por Bobi! Recordo com saudade aquele dia em que fomos à Praia da Barra-a-barra apanhar banhos de Sol, de te ver pela primeira vez em fato de banho. Notei logo que tínhamos muita coisa em comum: Ambos com peitos pequenos, ombros largos e muitos pêlos nas pernas…
Olha, fico por aqui. Volta para mim e deixa-te de tretas. Se por algum acaso decidires não voltar pelo menos tem o bom senso de mandar alguém vir entregar-me o pincel e a lâmina da barba. Não sei para que levaste isso, tu que nunca foste de te preocupar com a imagem!

quarta-feira, abril 04, 2007

O Burro Desdentado

Diz o sábio povo que um azar nunca vem só. O Ti’Bezana, homem sensato, gosta de acrescentar algo mais a esse provérbio: “Um azar nunca vem só, trás sempre um burro desdentado com ele”.
Sinceramente nunca percebi o que o Ti’Bezana quer dizer com aquilo, também não sei se é bem isso que ele diz. Geralmente quando o oiço proferir ditos populares estamos ambos na sua adega, no Cabeço Verde. Lá a acústica é má e não é fácil falar com a torneira da pipa de vinho nos beiços. Lembro-me da vez que o ouvi dizer: “vai lá fora buscar pão e torresmos meu trambolho, mexe-me essa grande melancia que tens em cima dos ombros a fazer de cabeça!”. Fui, voltei bastante depois sem os torresmos pois não os encontrei. Como tinha passado imenso tempo a pipa já tinha esvaziado e tornara-se mais fácil entender o Ti’Bezana, agora de boca livre, que me disse pasmado:
- Onde foste tu pá?!
- Então fui buscar o pão e os torresmos que o Tio me pediu!
- Estás bonito estás… mas eu não disse nada disso!
- Não?!
- Não, estava só a cantarolar aquela música da Shakira e depois vi-te a dar de frosques… porra também não canto assim tão mal!
- Claro que não Ti, a sua voz é excelente.
- Há bom… e então os torresmos? Porque é que não os trouxeste? Ai essa cabeçorra!

terça-feira, março 27, 2007

O fim anunciado duma Era.

O tempo não volta para trás. Sim… é uma frase mais gasta do que as partes íntimas duma prostituta de 50 anos a atacar há 30 no Pinhal de Coina. Mas a vida é mesmo assim. É por isso que eu olho sempre em frente, nunca para trás. Também nunca olho para o chão o que juntando ao facto de calçar o 45/46 (e com a ajuda da falta de civismo) vem demonstrar que a relação que tenho com a merda de cão não é simples coincidência. Eu também quase nunca acredito em coincidências. Quase nunca. Mas às vezes elas acontecem. E às vezes não são boas coincidências. Mas o que interessa é continuar a caminhar… convém é ir olhando para o chão, não vá pisar-se uma “mina" de cão ou meter o pé dentro duma sarjeta.
Mas no fundo todos temos memórias e vivemos com elas. Lembro-me de começar a desenvolver a minha aptidão para conseguir o que queria com o menor esforço possível. Sem pedalar, o meu triciclo percorria as ruas da Vila de baixo para cima, de cima para baixo. Também me lembro de começar a desenvolver o lado imaginativo (ou incompreensivelmente estranho se preferirem) nas horas passadas naquela janela a olhar o rio, a Ilha do Rato, os barcos, os aviões militares a aterrar no Montijo, ao mesmo tempo que comia torradinhas ou bolachas baunilha.
Já não cabo num triciclo e duvido que haja alguém de bom senso que me tente puxar num com a ajuda de um cordel, cada vez há menos aviões a aterrar no Montijo, olho o rio e a Ilha do Rato de outros sítios, as (verdadeiras) bolachas baunilha estão a desaparecer, as torradinhas já não têm o mesmo sabor e a machadada final: o último dos meus Velhotes foi-se. Não vou voltar àquela casa nem àquela janela, mas também não vou precisar… há coisas que a memória, até num tipo que anda à procura do telemóvel com ele na mão, teima em guardar.

Para o meu Avô, rijo, torto e com um feitio de meter medo ao susto, no entanto sempre tão bondoso e doce comigo.

quinta-feira, março 15, 2007

As crónicas do Zé Caxias – A minha sobrinha Aurora

A minha sobrinha Aurora vai ficar para tia. O Stylish já o tinha previsto numa leitura de Tarot. Ninguém acreditou quando ele disse que vinha a caminho um novo membro da família, especialmente numa altura em que a mãe da Aurora, a minha irmã Irene Caxias, já contava com quase 50 primaveras. O pai tratou de confirmar a profecia do Stylish. Fugiu com uma francesa de 20 anos que tinha acabado de conhecer no Algarve. Passados 5 meses a jovem dava à luz trigémeos.
O raio da miúda já leva 35 anos e nada de namoricos, pelo menos ainda não me apareceu nenhum “cão” a “verter águas” à porta. Não é que eu queira despachar a moça, ela nem dá trabalho nenhum e ainda ajuda na lida da casa. Mas se ela arranjasse um namorado vinha mesmo a calhar. Sinto necessidade de arranjar outro discípulo para formar nas minhas artes do charme e sedução, especialmente agora que o Talk Talk já está mais que lançado e nem aparece cá para receber conselhos. Acha que já sabe tudo.
Não sei se há algum moçoilo casadoiro nos leitores desde blog se sim deixem que lhes diga que a minha Aurora é moça séria. Por favor, não se deixem intimidar pelo seu olhar de camaleão, nem pela voz aguda a fazer lembrar a sirene dos bombeiros. A tendência que ela tem para lançar perdigotos quando fala também só acontece porque a placa dos dentes lhe está um pouco larga, é que já foi pertença da mãe, que tem uns maxilares ainda mais largos (e tortos) do que a filha. Apareçam e estejam à vontade para lhe fazer a côrte. Não venham é depois das 9, sobretudo se forem sensíveis ao cheiro a Queijo da Serra, é que depois de jantar a Aurora gosta muito de andar descalça pela casa, diz que se sente mais à vontade.