quinta-feira, março 15, 2007

As crónicas do Zé Caxias – A minha sobrinha Aurora

A minha sobrinha Aurora vai ficar para tia. O Stylish já o tinha previsto numa leitura de Tarot. Ninguém acreditou quando ele disse que vinha a caminho um novo membro da família, especialmente numa altura em que a mãe da Aurora, a minha irmã Irene Caxias, já contava com quase 50 primaveras. O pai tratou de confirmar a profecia do Stylish. Fugiu com uma francesa de 20 anos que tinha acabado de conhecer no Algarve. Passados 5 meses a jovem dava à luz trigémeos.
O raio da miúda já leva 35 anos e nada de namoricos, pelo menos ainda não me apareceu nenhum “cão” a “verter águas” à porta. Não é que eu queira despachar a moça, ela nem dá trabalho nenhum e ainda ajuda na lida da casa. Mas se ela arranjasse um namorado vinha mesmo a calhar. Sinto necessidade de arranjar outro discípulo para formar nas minhas artes do charme e sedução, especialmente agora que o Talk Talk já está mais que lançado e nem aparece cá para receber conselhos. Acha que já sabe tudo.
Não sei se há algum moçoilo casadoiro nos leitores desde blog se sim deixem que lhes diga que a minha Aurora é moça séria. Por favor, não se deixem intimidar pelo seu olhar de camaleão, nem pela voz aguda a fazer lembrar a sirene dos bombeiros. A tendência que ela tem para lançar perdigotos quando fala também só acontece porque a placa dos dentes lhe está um pouco larga, é que já foi pertença da mãe, que tem uns maxilares ainda mais largos (e tortos) do que a filha. Apareçam e estejam à vontade para lhe fazer a côrte. Não venham é depois das 9, sobretudo se forem sensíveis ao cheiro a Queijo da Serra, é que depois de jantar a Aurora gosta muito de andar descalça pela casa, diz que se sente mais à vontade.

terça-feira, março 13, 2007

Às vezes não há coincidências.

O Jean Cacilhas é um castiço. Massagista do maior clube da associação de futebol de Setúbal, o Fontepratense, coleccionador de caricas da Sumol, criador de caracoleta ibérica e ainda arranja tempo para ser um visionário. Visionário porque inventou uma profissão: Fornecedor de coincidências. Ele inventa coincidências e vende-as a bom preço a quem delas precisar.
Por exemplo: imagine-se que se tem uma apresentação no trabalho daqui por dois dias, não está nada preparado, dava um certo jeito ficar doente para não ter que passar a vergonha de fazer má figura em frente da Administração. Um telefonema ao Jean Cacilhas e ele arranja a forma da pessoa ficar mesmo doente… pimba, e parece mesmo uma coincidência!!!
Certa vez recorri aos préstimos do meu amigo Cacilhas. O que eu pretendia não era fácil… talvez exigisse mesmo mais do que uma grande coincidência, chegava a roçar o milagre. Era necessário criar uma situação em que eu me cruzava numa rua do Barreiro com uma determinada rapariga, tinha que estar a chover, ela não podia trazer guarda-chuva e em simultâneo passava na estrada uma fanfarra dos bombeiros, com cinco tambores, a tocar a banda sonora do Rocky Balboa, ao mesmo tempo que dois aviões da força aérea do Madagáscar desenhavam no céu um enorme coração.
Talvez tenha sido o único fracasso do Jean Cacilhas. A coisa não correu como o esperado. Os bombeiros trouxeram apenas quatro tambores!

sexta-feira, março 09, 2007

É o que dá levar piratas ao Bowling!

Já vos falei do Capitão Migas. Corsário do Tejo, homem de poucas falas, conhecido no submundo das Tascas pelo Esponja do Tinto. Eu, em jeito de respeito, trato-o apenas por… capitão!
Certo dia, reparando no olhar vago e saudosista do capitão decidi convidá-lo para uma jogatana de bowling com a rapaziada. Não é coisa que façamos todos os dias, nem sequer todas as semanas. Acontece. Aconteceu há dias. Um telefonema do Charm desencadeou o processo. Eu, o capitão, o próprio Charm e o Stylish partimos então para uma noite de ramboia, entre cervejas (sumos de maracujá no caso do Stylish) e lançamentos.
A chegada à recepção começou como sempre começa: Hora de gozar com o tamanho dos meus chispes:
- Minha senhora será que para além de sapatos também tem submarinos?! – Perguntou o Charm
- Porquê? – Perguntou ela sorrindo.
- Porque eu calço o 46! – Disse-lhe eu tentando matar ali a brincadeira.
- Ah… isso arranja-se. Nós temos todos os números possíveis. Também o senhor com essa altura tinha mesmo que calçar um número grande, não é? Tem que ser todo grande…
- Pois… – Confirmei eu.
- Mas minha senhora, para mim é que acho que não vai arranjar número, nem que se pinte de roxo – Disse o capitão.
- Há não?! Então porquê? – Perguntou ela.
- Porque eu tenho uma perna de pau!

terça-feira, março 06, 2007

Histórias da adolescência – A miúda chamada Gina

Não há pessoal da minha geração que não se lembre da Gina. Falo-vos obviamente da revista Gina. Quem nunca teve o prazer de desfolhar a revista, pelo menos chegou a ouvir histórias rocambolescas sobre os seus didácticos conteúdos, sobre a qualidade gráfica das imagens, sobre a sua arte linguística.
Mas afinal quem era a Gina? Não sei. Mas em tempos, na escola Secundária, conheci uma miúda com esse nome. Era inevitável o sorriso sempre que a chamava ou ouvia o seu nome. Talvez por isso ela nunca me tenha levado realmente a sério. Talvez por isso aquela pasta carregada de livros me tenha acertado em cheio na mona numa célebre tarde em que, para além do galo com que fiquei, ainda fui a tempo de comer um Donut apanhado por alguém do chão.
Um dia contei-lhe:
- Tens nome de revista… é isso!
- Está bem e depois? Também há a Maria e outras… porque é que implicas só comigo?
- A revista… como é que te hei-de dizer… a revista é… olha não consigo explicar-te só mostrando-te.
- Tens aí alguma Gina contigo?
- Não. Mas o Carlitos costuma andar sempre com uma… espera aí um bocadinho. Oh Carlos pá tens aí alguma Gina?
- Tenho.
- Então empresta ai…
- Não posso.
- Porquê?
- Ainda não plastifiquei todas as páginas. A Gina não é para estragar! Estou farto de ver páginas coladas nas minhas revistas… perde-se a sequência da história é o que é!

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A Última Bala – Episódio II

Glamour City era uma pequena cidade do longínquo Oeste, limitada a duas ruas principais perpendiculares que formavam uma cruz. O local mais movimento era a Rua Direita, lugar onde pontificava o comércio de tecidos, especiarias e outras iguarias como tremoços, amendoins, queijo da Serra e alfarrobas. Era nesta rua que se situava o saloon.
The Kid e Búfalo Charm tiveram que percorrer cerca de 70 metros até chegarem ao cruzamento das duas ruas. Numa das esquinas, em frente à barbearia surgia imponente o edifício para o qual se dirigiam. No rés-do-chão existia um Restaurante Chinês com uma porta em alumínio lacado e montra de vidro fosco com caracteres chineses indecifráveis aos olhos ocidentais. No primeiro andar situava-se o Posto do Xerife. Uma porta de ferro semi-aberta, situada na fachada sem montra, com um letreiro dizendo Departamento do Xerife – Glamour City, dava acesso a uma escadaria de madeira. No topo das escadas, um open space de 40 metros quadrados. Sentado num enorme puff branco, junto a uma janela com vista para o deserto, encontrava-se Lucky Talk, o Xerife.
Embora estivesse sentado, notava-se que Talk era um homem bastante alto. O seu estilo era um misto de Capitão Iglo e Roy Rogers. Chapéu de marinheiro, colete preto, lenço, camisa azul clara, botas de cavaleiro castanhas, cachimbo adornado com efeitos de arte manuelina, barda de duas semanas. Estranhamente não se mostrou surpreso com a chegada dos dois cowboys.
- Bem-vindos ao meu modesto gabinete. Já faz alguns anos que não te via Kid. Que te fez vir aqui? Diz-me … estou curioso – Avançou Lucky Talk.
- Achei que me podias ajudar, em nome dos velhos tempos. Espero que não te tenhas esquecido do tipo que te ensinou a montar a cavalo, antes de te tornares cowboy, quando eras ainda um rapaz que sonhava em formar uma banda de Country Punk Rock.
Búfalo Charm mostrou-se surpreendido engasgando-se com a pastilha de nicotina que mascava, Lucky Talk riu à gargalhada elevando os pés e quase dando a cambalhota no puff. Passando alguns segundos respondeu-lhe:
- Ainda persigo esse sonho Kid. Em que te posso ajudar? Não me digas que estacionaste o cavalo em cima do passeio e queres que te perdoe a multa!
- Nada disso – retorquiu Stylish the Kid – Quero apanhar um comanchero de nome Peres Pestana, ele trapaceou-me. Só te peço para não te meteres no meio, é que a coisa vai ficar preta.
O semblante do Xerife ficou subitamente carregado. Charm apercebendo-se disso e antes que ele dissesse algo lançou a farpa:
- Não faças essa cara Talk. Onde está o tipo que em tempos desafiou a lei, fazendo o moonwalking dance do famoso músico Mike “Bonanza” Jackson, em plena parada do Forte del Plata, durante o juramento de bandeira? Tu já foste um rebelde, amigo.
- Isso foi noutros tempos pá. Eu detesto o Peres Pestana tanto quanto vocês, mas e as provas? Há meses que tento apanhá-lo. Todos sabem que ele é o chefe do contrabando de pêra Rocha e cereja da Beira em todo o Oeste, mas ainda não conseguimos reunir as provas suficientes para indiciá-lo.
- Provas? Eu dou-te as provas. Aqui as tens – Estendendo o braço por detrás das costas, the Kid entregou uns papéis em folha A4 quadriculada ao Lucky Talk – São provas irrefutáveis. Trago-as comigo desde Dio Farming City.
Olhando para aquela folha rabiscada, Talk esboçou um sorriso de esperança e contentamento.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A Última Bala (Reedição)– Episódio I

Este blog fez anos no passado dia 18. Pouco tempo falta para fazer dois anos que eu aqui comecei a escrever. Posto isto e como ando numa fase chármico-nostalgica vou reeditar a história que mais gozo me deu escrever. Pode não parecer mas nesta história está lá tudo… ou melhor… não está lá nada!
O Saloon
O saloon era como todos os saloons. O soalho de madeira, a escadaria que nos leva ao “paraíso”, o bar com a caleira do cuspe cheia como um rio no Inverno, o piano, as mesas da batota, os quadros com nós de marinheiro pendurados nas paredes, o poster do Glorioso.
A entrada de Stylish the Kid encheu de inquietude todos aqueles que se encontravam no saloon. Os batoteiros estremeceram de medo, parando a jogatana, os “comancheros” locais largaram os copos de whisky importado, as bailarinas/concubinas sentiram os corações a bater mais intensamente, o piano deixou de tocar. Stylish tinha a fama de grande pistoleiro. O seu estilo inconfundível e perturbador causara um impacto brutal na memória colectiva do Oeste. Enfrentava sempre os seus inimigos de costas, sem os olhar nos olhos. Aliás, era assim que andava, montava a cavalo, bebia a sua água ardente, limpava a arma, lia a Bíblia. As suas vestes eram dum estilo Oeste-punk-rockeiro. Vestia-se todo de negro, de calções pelo joelho, camisa por fora, gabardina até aos pés, chapéu de cowboy e botas de camurça.
Mas houve quem não se tivesse apercebido da sua chegada. Búfalo Charm encontrava-se sentado numa mesa lendo um manuscrito, bebendo uma laranjada e comendo um bolo de arroz. Este era um típico cowboy, as patilhas, a samarra castanha, as calças de bombazina cinzentas, o sombrero amarelo, os dois cigarros na boca.
Stylish aproximou-se de Charm, ignorando os olhares apreensivos que o seguiam e disse:
- Então já não se fala aos amigos?
Búfalo Charm olhou-o e replicou:
- Estás a falar comigo? Bem deves estar… não estás de costas para mais ninguém! Que te trás por cá Kid?
- Ajuste de contas. As dívidas são para ser pagas. Em tempos um tal de Peres Pestana contratou-me para um serviço, queria que eu abatesse dois perus que não paravam de o chatear, em troca eu receberia um saco de gomas e dois fardos de palha.
- Gostas de gomas?!
- Não. As gomas são para o cavalo. Bem…o trabalho foi feito e recebi apenas os fardos de palha. Venho buscar as gomas, detesto que maltratem o meu cavalo.
- Bem amigo Kid… aqueles comancheros que estão ali borrados de terror a olhar para nós são lacaios do Pestana, ele brevemente saberá da tua presença. Podes contar comigo mas temos um problema…
- Qual Charm?
- O xerife cá de Glamour City é um velho conhecido nosso, o Lucky Talk. E tu sabes como é ele com estas coisas da lei e da justiça, é um atadinho, sempre a cumprir a lei …sempre a cumprir a lei!!!
- Vamos lá então falar com o nosso amigo xerife.