quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A Última Bala (Reedição)– Episódio I

Este blog fez anos no passado dia 18. Pouco tempo falta para fazer dois anos que eu aqui comecei a escrever. Posto isto e como ando numa fase chármico-nostalgica vou reeditar a história que mais gozo me deu escrever. Pode não parecer mas nesta história está lá tudo… ou melhor… não está lá nada!
O Saloon
O saloon era como todos os saloons. O soalho de madeira, a escadaria que nos leva ao “paraíso”, o bar com a caleira do cuspe cheia como um rio no Inverno, o piano, as mesas da batota, os quadros com nós de marinheiro pendurados nas paredes, o poster do Glorioso.
A entrada de Stylish the Kid encheu de inquietude todos aqueles que se encontravam no saloon. Os batoteiros estremeceram de medo, parando a jogatana, os “comancheros” locais largaram os copos de whisky importado, as bailarinas/concubinas sentiram os corações a bater mais intensamente, o piano deixou de tocar. Stylish tinha a fama de grande pistoleiro. O seu estilo inconfundível e perturbador causara um impacto brutal na memória colectiva do Oeste. Enfrentava sempre os seus inimigos de costas, sem os olhar nos olhos. Aliás, era assim que andava, montava a cavalo, bebia a sua água ardente, limpava a arma, lia a Bíblia. As suas vestes eram dum estilo Oeste-punk-rockeiro. Vestia-se todo de negro, de calções pelo joelho, camisa por fora, gabardina até aos pés, chapéu de cowboy e botas de camurça.
Mas houve quem não se tivesse apercebido da sua chegada. Búfalo Charm encontrava-se sentado numa mesa lendo um manuscrito, bebendo uma laranjada e comendo um bolo de arroz. Este era um típico cowboy, as patilhas, a samarra castanha, as calças de bombazina cinzentas, o sombrero amarelo, os dois cigarros na boca.
Stylish aproximou-se de Charm, ignorando os olhares apreensivos que o seguiam e disse:
- Então já não se fala aos amigos?
Búfalo Charm olhou-o e replicou:
- Estás a falar comigo? Bem deves estar… não estás de costas para mais ninguém! Que te trás por cá Kid?
- Ajuste de contas. As dívidas são para ser pagas. Em tempos um tal de Peres Pestana contratou-me para um serviço, queria que eu abatesse dois perus que não paravam de o chatear, em troca eu receberia um saco de gomas e dois fardos de palha.
- Gostas de gomas?!
- Não. As gomas são para o cavalo. Bem…o trabalho foi feito e recebi apenas os fardos de palha. Venho buscar as gomas, detesto que maltratem o meu cavalo.
- Bem amigo Kid… aqueles comancheros que estão ali borrados de terror a olhar para nós são lacaios do Pestana, ele brevemente saberá da tua presença. Podes contar comigo mas temos um problema…
- Qual Charm?
- O xerife cá de Glamour City é um velho conhecido nosso, o Lucky Talk. E tu sabes como é ele com estas coisas da lei e da justiça, é um atadinho, sempre a cumprir a lei …sempre a cumprir a lei!!!
- Vamos lá então falar com o nosso amigo xerife.

domingo, fevereiro 18, 2007

Crazy...i'm wet baby...please post something!!

Easy darling. Later, later...Slow down your patchouli addict.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Maré-cheia – Reedição

A uma maré-vazia sucede-se uma maré-cheia. O rio tem os seus ciclos, tal como a vida. É bom ver os lodos cobertos pelo prateado do Tejo, ouvir o chapinhar das tainhas, cheirar a maresia trazida pelos ventos do norte. É para esses momentos que vivo. É neles que me inspiro.
Partir pela manhã na minha herdada barcaça, na subida da maré, indo até à Ilha do Rato, é um ritual que sigo desde que me lembro de existir. Comecei esta romaria com o meu Avô, o saudoso “Custou” Caxias. A alcunha provém das semelhanças físicas e de hábitos com o velho lobo-do-mar francês. O meu avô era um homem fantástico, com uma cultura alicerçada nas horas passadas a jogar à bisca lambida com outros marinheiros, com um charme capaz de derreter uma estátua de bronze, com um sentido de humor capaz de fazer chorar a rir um tronco dum chaparro ressequido pelo Sol. Para além de marinheiro e estudioso do mar foi também um grande mecenas, tendo criado a famosa e tantas vezes incompreendida Fundação Caxias.
A Fundação, com sede na Tasca do Azedo, tem a responsabilidade cívica de apoiar jovens com valor, nomeadamente jogadores de dominó, do chinquilho, futebolistas, poetas, músicos e todos aqueles que de alguma forma desejam viver da sua arte. Os tipos de apoio variam consoante a qualidade e experiência a nível artístico, podendo ir desde a motivante palmadinha nas costas até à entrega duma bolsa mensal. A bolsa pode alternar entre o azul-bebé, o rosa choque e o preto e tem fecho éclair. Contém várias coisas no seu interior como uma malha, canetas Bic (laranja e cristal), um baralho de cartas, dois bilhetes de autocarro dos Colectivos do Barreiro, saquetas de Ultra-levur e um after-shave da loja dos trezentos.
Agora vou porque o tempo escoa. A Ilha do Rato espera-me para lá deste mar-chão. Voltarei na descida da maré, isto se o casco decidir que ainda não é hoje que se rende à investida do rio ou se, como diz a lenda, a Ninfa me raptar e me mantiver cativo (contra a minha vontade, claro) nos areais da Ilha. Se esta última coisa me acontecer não se incomodem a pedir ajuda, eu cá me hei-de desenrascar!

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Tentando irritar Budistas II

- Hã?! Eu não! Como é que…
- Não me contrarie por favor, diga lá. Isso se quer que eu o ajude a ultrapassar esses traumas…
- Eu só vim cá por causa das aftas que costumo ter quando como cascas de tremoço…
- Meu caro… não negue… não me insulte (isto é dito mantendo um ar irritantemente calmo e abichanado).
- Mas com estas três respostas concluiu que eu tenho problemas psicológicos?!
- Os testes são milenares. Não há engano possível. Não negue que tem problemas.
- Milenares?! Mas o Pai Natal tem mil anos?!
Com esta pergunta senti uma ténue esperança em recuperar a minha caderneta do Sport Billy e conquistar a caderneta de cromos da Abelha Maia da Titá. O tipo remexeu-se na cadeira, respirou fundo e disse:
- Já vi que não quer ser ajudado. Veio aqui afinal fazer o quê?
- Por causa das aftas… mas por favor explique-me lá porque é que as respostas indicam que eu estou maluco? Foi por causa da altura do Pai Natal?
- Não só meu caro. O teste no seu todo revela perturbações…
- Mas são apenas três perguntas! Até a TV Guia faz testes mais completos, você é um charlatão!
- Calma… não se exalte isso apenas vai piorar o seu estado.
- O meu estado?! Vai mas é pentear macacos meu grande palhaço, pensas que eu não me lembro de ti a enfardares porrada no liceu porque eras um cromo?!
- Pronto Talk tenha calma, respire fundo e isso passa… Talk? Talk? Venha cá que a gente oferece um cházinho… Talk?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Tentando irritar Budistas I

Mestre Shakar, ou Zé Rui para quem o reconhece por detrás da túnica alaranjada e da cabeça rapada, é budista. Perito em medicina oriental, em Yoga e outras artes afins, mantém uma aparência de pura acalmia, de bem com o universo circundante, suavizada pelos seus indisfarçáveis tiques de gay.
No outro dia fiz uma aposta: “Eu consigo tirar do sério o Mestre Shakar”. A minha amiga Titá, cliente dele desde que lhe apareceram os soluços compulsivos sempre que ouve uma música do Nat King Cole cantada em espanhol, passa o tempo a gabar a profunda tranquilidade de Shakar: “Impressiona olhar para a sua expressão tranquila enquanto tento acertar, com papéis enrolados, numa jarra Ming que o tipo tem em cima da prateleira”.
Com a minha colecção de cromos do Sport Billy em risco, lá parti eu até ao consultório do Mestre. Antes de entrar no gabinete a sua assistente deu-me um questionário para responder, com as seguintes três perguntas:
- Dorme bem durante a noite?
- Qual a sua cor favorita?
- Qual a altura do Pai Natal?
Respondidas as questões com um “Sim”, um “Azul” e um “Como é nórdico... deve ter para ai um metro e noventa”, entrei no gabinete. Shakar, após me cumprimentar com um aceno quase imperial fez a seguinte pergunta?
- Senhor Talk Talk, vejo pelas suas respostas que é uma pessoa bastante perturbada, qual é o seu problema?
(continua)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A Tropa

Diz-se que a tropa faz de nós uns homens. A mim fez-me mais do que isso, tornou-me num homem prendado. Não só aprendi a atar atacadores de botas e a tomar banhos de três minutos, como ainda descobri uma maneira rápida de fazer a cama, dormindo na cama despojada do gajo que tinha desistido na semana anterior!
Ainda bem que não é todos os dias que acontece a semana de campo. É uma coisa chata, particularmente no Inverno e sobretudo se estivermos com diarreia. Como sou um tipo com alguma sorte a semana de campo foi no Outono, mas como sou desprevenido tive que me valer das folhas de eucalipto e duma carta que tinha recebido. Felizmente era apenas uma carta de amor.
O último dia da primeira semana de campo foi... estranho. Para além de ter depositado “minas” praticamente em todo o perímetro do acampamento vim a descobrir que o “Salvatore”, meu camarada de armas, andava com os “parafusos trocados”.
Tinha caído a noite, era hora de provar as delícias da ração de combate:
- Então Talk, que tal está o paté? – Perguntou-me o “Salvatore”.
- Ah… não é mau, mas já provei graxa para sapatos mais cremosa do que esta pasta… – Respondi-lhe eu.
- Pois… eu também não estou a gostar desta pastilha elástica, sabe mal!
- Pastilha elástica?!
- Sim… é essa coisita que tens ai no fundo da caixa?
- Ah ok, esta coisita aqui?!
- Sim sim.
- “Salvatore” esta coisita não é uma pastilha elástica…é um fulminante pá!
- Fulminante?! Isso é aquilo para ajudar a fazer fogo?!
- Sim isso. Tem calma … desde que não ponhas um fósforo na boca nem ranjas os dentes podes continuar a mascar isso na boa.