terça-feira, outubro 17, 2006

A história de Rocky – Parte IV

- ARHHHHHHHHRRRRRRRRRRRRRR RURURURUHHHHHH
Rocky bem protestou, mas não havia muito a fazer. Rapar o pêlo branco era a única solução para fazer com que parecesse mais humano. Sentado num cadeirão bem preso com amarras, no centro do ringue de treino, o yeti aguardava inquieto a chegada de Zé Pastor, homem habituado à labuta da tosquia de ovelhas. Quatro horas depois estava terminada a tarefa. Restava apenas limpar e levar a vazadouro a enorme quantidade de penugem tosquiada. “Cabeças”, pescador do rio Tejo que contribuiu com o fornecimento dos cabos que amarraram Rocky, disponibilizou-se para ficar com o pêlo: “deixem estar que eu trato disso, a minha Maria é capaz de me fazer um gorro para eu levar para o mar no Inverno, se não houver material suficiente para isso aproveita-se o que há e faz-se um belo cobertor”.
No dia seguinte Rocky surgiu no ginásio. Nasce então o mito dentro do próprio mito. Ninguém, exceptuando Chelas que tinha engendrado o plano, reconheceu Rocky. A perplexidade tomou conta de todos aqueles que o olhavam… quem seria?
- É… o … ehhh Beiças – Disse Chelas reparando na espessura dos lábios do yeti que agora se desvendavam na sua plenitude. – É o grande Rocky Beiças. Vem do estrangeiro para ser o nosso campeão!!!
Começou assim o mistério em torno das suas origens. Havia quem garantisse que se tratava dum gigante albino proveniente das selvas do Congo, havia quem jurasse a pés juntos tê-lo visto num filme documentário da ex-URSS onde aparecera como mineiro nas grutas de prata do Kazaquistão.
Rocky Beiças ignorou todos os boatos. Estava preparado para se tornar no maior lutador de todos os tempos da história do pugilismo da região! Mas primeiro teria que enfrentar um dos mais temíveis lutadores que já pisaram os ringues.

sexta-feira, outubro 13, 2006

A história de Rocky – Parte III

Lino Chelas era um tipo com sorte. Calhava sempre estar no lugar certo à hora certa, ou por outro lado, a evitar o lugar errado na hora errada. Até no dia em que acabou para o boxe, essa sina o acompanhou. O tareão que levou do Ulisses Melro deixou-o em coma, então já não foi ter com a amante, como era hábito fazê-lo após os combates. O marido cornudo, aguardava-o à esquina com uma caçadeira pronta a rebentar-lhe com os miolos. Chelas acabou por não aparecer, uma vez que passou essa noite (e as 130 subsequentes) no Hospital de São José.
No sítio certo à hora certa, Lino Chelas observou o espancamento de Rocky aos malfeitores. Regressava da fisioterapia e era comum passar por ali, embora a hora diferente. Um copo 3 na Taberna do Silva e uma “regadela às azeitonas” nos canaviais junto à linha do comboio tinham feito que se atrasasse cerca de 30 minutos.
Ficou estupefacto. Viu ali um potencial pugilista, capaz de dominar o boxe na categoria de pesos pesados. Precisava apenas duns retoques. Quando o viu mais calmo, aproximou-se e meteu conversa:
- Olá jovem. Já ouviste falar no Ginásio do Chelas? Ensinamos boxe ao pessoal… acho que eras capaz de ter jeito para a coisa, estás interessado?
- LUTAR NÃO. LUTAR NÃO – Articulou Rocky de forma rude.
- Mas não é uma luta rapaz… é um desporto, é bom para a saúde. Não ouves o que dizem os médicos pá?
- DESPORTO? AHHRHHRHRHR RHRHRURURURURUR. SIM. BOXE DESPORTO ENTÃO SIM!
Na manhã seguinte lá estava Rocky no ginásio. Vinha vestido a preceito. Fita na cabeça, calções pretos, camisa de manga cava que de tão curta lhe dava pelo meio do tronco, deixando a pelugem da barriga ao léu.
Sem grandes demoras Chelas começou a treinar o seu futuro campeão. Ensinou-lhe a filosofia do pugilismo, os golpes, os gestos. Aos poucos Rocky ia-se tornando numa verdadeira máquina de guerra. Pronto a golpear sem piedade os adversários mais temíveis. Só havia um problema: como inscrever um Yeti numa modalidade que somente aos seres-humanos era permitida?

sexta-feira, outubro 06, 2006

A história de Rocky – Parte II

Foi numa bela manhã de Verão que Lubomir Rocky desembarcou pela primeira vez na Portela. Que estranha visão tiveram todos aqueles que o observaram!! Causou grande frisson. Embora habituados aos estranhos craques de futebol que chegavam às resmas para alimentar os plantéis dos clubes da cidade, isto era absolutamente novo. Dois metros e trinta num corpo rijo e descomunalmente largo, coberto de pelugem branca. A trouxa de pano preto, o chapéuzinho e o papillon vermelho completavam o ramalhete. A noção de excêntrico adquirira agora uma nova amplitude.
Lubomir pouco lhes ligou. Foi à sua vida. A pé porque nunca tinha visto um táxi na vida e também não falava a língua para explicar onde queria ir. Arranjou um quarto na Margem Sul do Tejo e tratou de procurar emprego. Deambulou entre trabalhos variados como ajudante de cozinha, figurante em teatro de revista, espectador de TV, vendedor em loja de lingerie feminina.
Foi durante a sua estadia nessa mesma loja que a sua vida mudou. A dona do estabelecimento, Erica Soraia tinha por ele um carinho especial. “Meu gigante felpudo”, dizia-lhe ela, “Fazes-me lembrar um meu ex-marido. Só vejo duas diferenças entre vocês: os pêlos dele eram pretos e tu consegues articular mais palavras numa frase”. Lubomir sentia-se orgulhoso, as aulas de português começavam a sortir efeito. Já conseguia pronunciar o seu nome e dizer “Bom-dia” sem grunhir!!
Mas não foi por isso que a sua vida mudou. Erica convenceu-o a tirar um curso de pintura de azulejo, em horário pós-laboral. Ele adorou a ideia. Estava entusiasmado. Segundo o que diziam tinha nascido para aquilo. Pintava com ardor e criatividade. Aquela tarefa realizava-o em pleno.
No entanto, numa 5ª feira à noite quando saía da aula, descobriu a sua outra vocação. O famoso Bando dos Calvos, do Vale da Amoreira, interpelou-o tentando um assalto. Eram 17 indivíduos, munidos de armas como colheres de pau, piaçás, cabos de vassoura. “Olha que o gajo é bué da grande!!”, lembrou um dos malfeitores. “Qual é o problema? É grande mas para andar num curso de gajas é por que não é grande coisa”, referiu o líder, gritando de imediato um “a ele que é maricas”.
Rocky não era violento. Mas quando se viu no chão, com 17 mamíferos sobre ele a espancá-lo reagiu. Um safanão e dois murros depois o bando estava KO. O lado animalesco de Rocky veio à superfície quando grunhiu e bateu vezes sem conta com os punhos no peito. Começara um nova era para Rocky.

terça-feira, outubro 03, 2006

A história de Rocky – Parte I

Mochachucha é uma aldeia yeti igual a tantas outras. Cosmopolita, sobrevive muito à custa do comércio de dentes de leite e também graças ao célebre cuspe yetino, que produz uma substância aquosa muito utilizada na indústria de pasta de dentes e de líquidos para conservar placas dentífricas.
Lubomir Rocky passava o tempo entre o consultório do Dentista, permitindo o ganha pão aos pais e a escola, onde aprendia entre outras coisas que “Guerreiros Niitsumy” significava amigos e “Bandochi” significava badamecos com a mania que sabem tosquiar yetis mas que existem apenas para levar grandes coças destes.
Acontece que certo dia, enquanto estava deitado na cadeira do dentista, sentiu o seu primeiro dissabor que marcaria a sua vida para sempre. “Lubo há algo que deves saber”, começou por dizer-lhe com voz pausada o Doutor, “não posso arrancar-te mais dente nenhum. Primeiro porque não tens mais nenhum para arrancar, depois porque isso significa uma coisa: Esta última dentição que apareceu já não era a de leite!!”.
“Mas doutor como é que é possível, nascem sempre 20 a 22 dentições de leite nos jovens yetis, o Lubomir só ainda vai na sétima!!”, exclamou a mãe quase em choque.
Após se afastarem do moçoilo, de modo a que ele não se apercebesse da conversa o Doutor disse: “Minha senhora, ainda não reparou que o seu filho é baixo de mais para a idade?, não acha estranho o jovem ter quase 13 anos e ter apenas 2 metros de altura?”. “O que é que me está a querer dizer?”, perguntou a mãe aterrorizada. “O Lubo não é um Yeti de raça comum, ele é um Yeti anão!”, concluiu o Doutor.
O mundo daquela senhora desabou naquele momento. Lembrou-se das aventuras que teve no passado. O marido passava muito tempo fora e … os yetis de raça anã têm determinado tipo de fama capaz de provocar atitudes mais tresloucadas em jovens desconsoladas.
Tenha sido pela dor de corno ou simplesmente pelo facto da “máquina de marfim” ter esgotado a sua produção, o jovem Lubomir foi abandonado pelos pais. Lá partiu confuso, sem rumo, pelas montanhas até chegar ao país dos famosos Guerreiros Niitsumy.
Aí, acarinhado por outros yetis e não só, cresceu até se tornar um adulto forte e bondoso. Por ali poderia ter ficado o resto de seus dias, mas ele queria algo mais. Uma aventura epopeica o aguardava no outro lado do oceano.

quinta-feira, setembro 28, 2006

O Talk e o Mar – Parte II

A brisa entretanto transformara-se em vento. A doce lufada era agora um poderoso bafo gelado transportando salpicos de água salgada. A remada ficara um pouco mais difícil. Os dez centímetros de lâmina de água no casco já não eram a minha única preocupação.
É nestas alturas que nos perguntamos: “«Será que era mesmo para levar a sério a inscrição no bote que dizia: peso máximo 80 kg»? Ou então a outra mais dúbia: «Não deixe a sua criança levar sozinha o barco para a água»?”.
À medida que me aproximava do Poço, mais visível se tornava a sua riqueza. O mar agitado e o alvoroço das gaivotas, indicavam claramente a presença dum gigantesco cardume de tainhas. Estava na hora de preparar o anzol e lançar o isco na penumbra daquelas águas. A tarefa veio a evidenciar-se de execução complexa, para não dizer mesmo… impossível. Não é que não tivesse habituado a situações daquelas: o balanço do rio, o bote semi-afundado, o chinfrim das gaivotas. Tudo aquilo eram condições corriqueiras. Novidade mesmo era ir à pesca sem cana, fio ou anzol.
“Azar do caraças” exclamei eu. “Já nos safámos” pensaram as tainhas. “Vamos “obrar” em cima deste cromo” decidiram as gaivotas.
Poucos minutos depois, devidamente brindado com os dejectos da passarada, já não era o bote que me mantinha à tona de água, mas sim eu que evitava que desaparecesse para sempre nos lodos do Tejo. Valeu o meu lastro de grande nadador. Isso e as braçadeiras que vieram no pacote com o bote de borracha.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Escândalo na Liga Beta & Inna

Já se sente o fervilhar dos corações dos adeptos prontos para mais uma edição da Liga Beta & Inna.
Mais uma vez, o Fonte Pratense parte bem colocado para a vitória final. Desta vez espera-se que os 15 pontos de avanço com que começa o campeonato sejam suficientes para garantir o titulo, uma vez que os 9 pontos conseguidos na época passada não foram suficientes. Zé Caxias, director do clube e compadre do Presidente da Liga já veio a terreiro avisar: “Espero que o treinador e jogadores estejam cientes do esforço investido (e dinheiro gasto em petiscadas) para partirmos na poule position.”
O grande rival desta época do Fonte Pratense, o Grupo de Casados da GNR dos Brejos da Moita, parte com 3 pontos negativos. O Cabo Silva, vice-presidente da agremiação tentou explicar o sucedido: “O Sr. Presidente ficou desgostoso por causa dos torresmos. A culpa foi dos torresmos, sabiam a ranço… não podíamos fazer nada, o Talhos do Lombo estão comprados pelos da Fonte da Prata, isto é uma vergonha!!!”
Como se não bastasse esta trapalhada ainda surgiu outro problema. Buchas Moscatel, estremo valoroso do Restaurante das Tainhas, aparentemente parece estar mal inscrito na Liga. O Director Geral do clube e cozinheiro do restaurante disse de sua justiça: “Mandámos o papel errado para a sede da Liga. É que o Buchas, para além de jogador de equipa também foi contratado como ajudante de cozinha. Houve uma clara troca de papeis. Não o podíamos dispensar dessa tarefa, o tipo faz uma óptima caldeirada”. Na Liga a reacção não se fez esperar por parte do próprio Presidente: “Esse senhor devia era estar calado, ainda ontem fui lá ao restaurante e serviram-me tainhas assadas que sabiam a bafio… frescas diziam eles!!!”